sexta-feira, 11 de julho de 2025

 PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

São Bento de Núrcia

Queridos irmãos e irmãs!

Gostaria hoje de falar de São Bento, Fundador do monaquismo ocidental, e também Padroeiro do meu pontificado. Começo com uma palavra de São Gregório Magno, que escreve de São Bento: "O homem de Deus que brilhou nesta terra com tantos milagres não resplandeceu menos pela eloquência com que soube expor a sua doutrina" (Dial. II, 36). O grande Papa escreveu estas palavras no ano de 592; o santo monge tinha falecido 50 anos antes e ainda estava vivo na memória do povo sobretudo na florescente Ordem religiosa por ele fundada. São Bento de Núrcia com a sua vida e a sua obra exerceu uma influência fundamental sobre o desenvolvimento da civilização e da cultura europeia. A fonte mais importante sobre a sua vida é o segundo livro dos Diálogos de São Gregório Magno. Não é uma biografia no sentido clássico. Segundo as ideias do seu tempo, ele pretende ilustrar mediante o exemplo de um homem concreto precisamente de São Bento a subida aos cumes da contemplação, que pode ser realizada por quem se abandona a Deus. Portanto, tem-se um modelo da vida humana como subida para o vértice da perfeição. São Gregório Magno narra também, neste livro dos Diálogos, de muitos milagres realizados pelo Santo, e também aqui não quer narrar simplesmente algo de estranho, mas demonstrar como Deus, admoestando, ajudando e também punindo, intervenha nas situações concretas da vida do homem. Quer mostrar que Deus não é uma hipótese distante colocada na origem do mundo, mas está presente na vida do homem, de cada homem.

Esta perspectiva do "biógrafo" explica-se também à luz do contexto geral do seu tempo: entre os séculos V e VI o mundo estava envolvido por uma tremenda crise de valores e de instituições, causada pela queda do Império Romano, pela invasão dos novos povos e pela decadência dos costumes. Com a apresentação de São Bento como "astro luminoso", Gregório queria indicar nesta situação atormentada, precisamente aqui nesta cidade de Roma, a saída da "noite escura da história" (cf. João Paulo II, Insegnamenti, II/1, 1979, p. 1158). De facto, a obra do Santo e, de modo particular, a sua Regra revelaram-se portadoras de um autêntico fermento espiritual, que mudou no decorrer dos séculos, muito além dos confins da sua Pátria e do seu tempo, o rosto da Europa, suscitando depois da queda da unidade política criada pelo império romano uma nova unidade espiritual e cultural, a da fé cristã partilhada pelos povos do continente. Surgiu precisamente assim a realidade à qual nós chamamos "Europa".

O nascimento de São Bento é datado por volta de 480. Provinha, assim diz São Gregório, "ex provincia Nursiae" da região da Núrsia. Os seus pais abastados enviaram-no para Roma para a sua formação nos estudos. Mas ele não permaneceu por muito tempo na Cidade eterna. Como explicação plenamente credível, Gregório menciona o facto de que o jovem Bento sentia repugnância pelo estilo de vida de muitos dos seus companheiros de estudos, que viviam de modo dissoluto, e não queria cair nos mesmos erros deles. Desejava aprazer unicamente a Deus; "soli Deo placere desiderans" (II Dial., Prol. 1). Assim, ainda antes da conclusão dos seus estudos, Bento deixou Roma e retirou-se na solidão dos montes a leste da cidade. Depois de uma primeira estadia na aldeia de Effide (actualmente Affile), onde durante um certo período se associou a uma "comunidade religiosa" de monges, fez-se eremita na vizinha Subiaco. Ali viveu durante três anos completamente sozinho numa gruta que, a partir da Alta Idade Média, constitui o "coração" de um mosteiro beneditino chamado "Sagrada Espelunca". O período em Subiaco, marcado pela solidão com Deus, foi para Bento um tempo de maturação. Ali tinha que suportar e superar as três tentações fundamentais de cada ser humano: a tentação da auto-suficiência e do desejo de se colocar no centro, a tentação da sensualidade e, por fim, a tentação da ira e da vingança. De facto, Bento estava convencido de que, só depois de ter vencido estas tentações, ele teria podido dizer aos outros uma palavra útil para as suas situações de necessidade. E assim, tendo a alma pacificada, estava em condições de controlar plenamente as pulsões do eu, para deste modo ser um criador de paz em seu redor. Só então decidiu fundar os seus primeiros mosteiros no vale do Anio, perto de Subiaco.

No ano de 529 Bento deixou Subiaco para se estabelecer em Montecassino. Alguns explicaram esta transferência como uma fuga das maquinações de um invejoso eclesiástico local. Mas esta tentativa de explicação revelou-se pouco convincente, dado que Bento não regressou para lá depois da morte repentina do mesmo (II Dial. 8). Na realidade, esta decisão impôs-se-lhe porque tinha entrado numa nova fase da sua maturação interior e da sua experiência monástica. Segundo Gregório Magno, o Êxodo do vale remoto do Anio para Monte Cassio uma altura que, dominando a vasta planície circunstante, se vê ao longe reveste um carácter simbólico: a vida monástica no escondimento tem uma sua razão de ser, mas um mosteiro tem também uma sua finalidade pública na vida da Igreja e da sociedade, deve dar visibilidade à fé como força de vida. De facto, quando, em 21 de Março de 574, Bento concluiu a sua vida terrena, deixou com a sua Regra e com a família beneditina por ele fundada um património que deu nos séculos passados e ainda hoje continua a dar frutos em todo o mundo.

Em todo o segundo livro dos Diálogos Gregório ilustra-nos como a vida de São Bento estivesse imersa numa atmosfera de oração, fundamento portante da sua existência. Sem oração não há experiência de Deus. Mas a espiritualidade de Bento não era uma interioridade fora da realidade. Na agitação e na confusão do seu tempo, ele vivia sob o olhar de Deus e precisamente assim nunca perdeu de vista os deveres da vida quotidiana e o homem com as suas necessidades concretas. Ao ver Deus compreendeu a realidade do homem e a sua missão. Na sua Regra ele qualifica a vida monástica "uma escola ao serviço do Senhor" (Prol. 45) e pede aos seus monges que "à Obra de Deus [ou seja, ao Ofício Divino ou à Liturgia das Horas] nada se anteponha" (43, 3). Mas ressalta que a oração é em primeiro lugar um acto de escuta (Prol. 9-11), que depois se deve traduzir em acção concreta. "O Senhor aguarda que nós respondamos todos os dias com os factos aos seus ensinamentos", afirma ele (Prol. 35). Assim a vida do monge torna-se uma simbiose fecunda entre acção e contemplação "para que em tudo seja glorificado Deus" (57, 9). Em contraste com uma auto-realização fácil e egocêntrica, hoje com frequência exaltada, o primeiro e irrenunciável compromisso do discípulo de São Bento é a busca sincera de Deus (58, 7) sobre o caminho traçado pelo Cristo humilde e obediente (5, 13), ao amor do qual ele nada deve antepor (4, 21; 72, 11) e precisamente assim, no serviço do outro, se torna homem do serviço e da paz. Na prática da obediência realizada com uma fé animada pelo amor (5, 2), o monge conquista a humildade (5, 1), à qual a Regra dedica um capítulo inteiro (7). Desta forma o homem torna-se cada vez mais conforme com Cristo e alcança a verdadeira auto-realização como criatura à imagem e semelhança de Deus.

À obediência do discípulo deve corresponder a sabedoria do Abade, que no mosteiro desempenha "as funções de Cristo" (2, 2; 63, 13). A sua figura, delineada sobretudo no segundo capítulo da Regra, com um perfil de espiritual beleza e de compromisso exigente, pode ser considerada como um auto-retrato de Bento, porque como escreve Gregório Magno "o Santo não pôde de modo algum ensinar de uma forma diferente da qual viveu" (Dial. II, 36). O Abade deve ser ao mesmo tempo terno e mestre severo (2, 24), um verdadeiro educador. Inflexível contra os vícios, é contudo chamado sobretudo a imitar a ternura do Bom Pastor (27, 8), a "ajudar e não a dominar" (64, 8), a "acentuar mais com os factos do que com as palavras tudo o que é bom e santo" e a "ilustrar os mandamentos divinos com o seu exemplo" (2, 12). Para ser capaz de decidir responsavelmente, também o Abade deve ser homem que escuta "os conselhos dos irmãos" (3, 2), porque "muitas vezes Deus revela ao mais jovem a solução melhor" (3, 3). Esta disposição torna surpreendentemente moderna uma Regra escrita há quase quinze séculos! Um homem de responsabilidade pública, e também em pequenos âmbitos, deve ser sempre também um homem que sabe ouvir e aprender de quanto ouve.

Bento qualifica a Regra como "mínima, traçada só para o início" (73, 8); mas na realidade ela pode oferecer indicações úteis não só para os monges, mas também para todos os que procuram uma guia no seu caminho rumo a Deus. Pela sua ponderação, a sua humanidade e o seu discernimento entre o essencial e o secundário na vida espiritual, ele pôde manter a sua força iluminadora até hoje. Paulo VI, proclamando a 24 de Outubro de 1964 São Bento Padroeiro da Europa, pretendeu reconhecer a obra maravilhosa desempenhada pelo Santo mediante a Regra para a formação da civilização e da cultura europeia. Hoje a Europa que acabou de sair de um século profundamente ferido por duas guerras mundiais e depois do desmoronamento das grandes ideologias que se revelaram como trágicas utopias está em busca da própria identidade. Para criar uma unidade nova e duradoura, são sem dúvida importantes os instrumentos políticos, económicos e jurídicos, mas é preciso também suscitar uma renovação ética e espiritual que se inspire nas raízes cristãs do Continente, porque de outra forma não se pode reconstruir a Europa. Sem esta linfa vital, o homem permanece exposto ao perigo de sucumbir à antiga tentação de se querer remir sozinho utupia que, de formas diferentes, na Europa do século XX causou, como revelou o Papa João Paulo II, "um regresso sem precedentes ao tormento histórico da humanidade" (Insegnamenti, XIII/1, 1990, p. 58). Procurando o verdadeiro progresso, ouvimos também hoje a Regra de São Bento como uma luz para o nosso caminho. O grande monge permanece um verdadeiro mestre em cuja escola podemos aprender a arte de viver o humanismo verdadeiro.

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terça-feira, 1 de julho de 2025


Palavra de Vida

Julho de 2025

Texto preparado por Letizia Magri 


«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

Martine ia numa carruagem do metro de uma grande cidade europeia. Todos os passageiros estavam concentrados nos seus telemóveis. Virtualmente estavam ligados, mas, de facto, estavam aprisionados no isolamento. Questionou-se: «Será que perdemos a capacidade de nos olharmos nos olhos?».

É uma experiência comum, sobretudo nas sociedades ricas de bens materiais, mas cada vez mais pobres em relacionamentos humanos. O Evangelho, no entanto, apresenta-nos sempre a sua proposta original, criativa, capaz de “fazer novas todas as coisas” [Cf. Ap 21,5].

No longo diálogo com o doutor da Lei que o questiona sobre o que é preciso fazer para ter como herança a vida eterna [2], Jesus responde com a famosa parábola do Bom Samaritano: um sacerdote e um levita – figuras de relevo na sociedade daquele tempo – veem um homem agredido por salteadores, caído na berma da estrada, mas passam adiante.

«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

É preciso ser capaz de não olhar apenas para os dons pessoais, mas também para as muitas potencialidades e a multiplicidade de visões e de opiniões que se apresentam diante de nós, naqueles que vivem ao nosso lado e com quem nos relacionamos, e até nas pessoas que encontramos por acaso. É importante, com todos, manter a autenticidade no coração e também ter a consciência dos limites do nosso ponto de vista.

Esta palavra de vida poderia ser um lema a adotar em todas as situações de diálogo e de confronto. Escutar o outro – não necessariamente para aceitar tudo, mas sabendo que é possível encontrar algo de bom naquilo que ele diz – favorece uma abertura do coração e do pensamento. É fazer o vazio dentro de nós, por amor, e ter assim a possibilidade de construir algo juntos.

«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

Ao doutor da Lei, que conhece bem o mandamento divino do amor ao próximo [Cf. Lc 10,25-37], Jesus propõe como modelo um estrangeiro, considerado cismático e inimigo. Ele viu o viajante ferido e encheu-se de compaixão, um sentimento que nasce de dentro, da profundidade do coração humano. Por isso, interrompe a sua viagem, aproxima-se e cuida dele.

Jesus sabe que cada pessoa humana está ferida pelo pecado e esta é precisamente a Sua missão: curar os corações com a misericórdia e o perdão gratuito de Deus, para que sejam capazes, por sua vez, de proximidade e partilha.

«[…] Para aprender a ser misericordiosos como o Pai, perfeitos como Ele, é preciso olhar para Jesus, revelação total do amor do Pai. […] O amor é o valor absoluto que dá sentido a tudo o resto […] que encontra a sua expressão mais elevada na misericórdia. É a Misericórdia que ajuda a ver sempre novas as pessoas com quem vivemos no dia a dia, na família, na escola, no trabalho, sem recordar os seus defeitos, os seus erros. Leva-nos a não julgar, mas a perdoar as ofensas que sofremos. E até a esquecê-las» [C. Lubich, Palavra de Vida de junho de 2002, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma, 2017, p.659]

«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

A resposta final e decisiva expressa-se com um convite claro: «Vai e faz tu também o mesmo» [Lc 10,37]. É isso que Jesus repete a quem aceita a sua Palavra: tornar-se próximos, tomando a iniciativa de “tocar” as feridas das pessoas que encontramos, no dia a dia, pelas estradas da vida.

Para viver a proximidade evangélica, antes de tudo, peçamos a Jesus que nos cure da cegueira dos preconceitos e da indiferença, que nos impede de ver para além de nós mesmos.

Depois, aprendamos com o Samaritano a capacidade da compaixão, que o levou a colocar em jogo a sua própria vida. Imitemos a sua prontidão para dar o primeiro passo em direção ao outro com a disponibilidade para o escutar, para fazer nossa a sua dor, livres dos juízos e do medo de “perder tempo”.

Foi a experiência de uma jovem coreana: «Procurei ajudar um adolescente que não era da minha cultura e que eu não conhecia bem. No entanto, apesar de não saber o que fazer nem como fazer, enchi-me de coragem e tentei ajudá-lo. Para minha surpresa, ao oferecer aquela ajuda, notei que me senti “curada” das minhas feridas interiores».

Esta Palavra oferece-nos a chave de ouro para atuar o humanismo cristão: torna-nos conscientes da nossa humanidade comum, em que se reflete a imagem de Deus, e ensina-nos a ir com coragem para além da mera “proximidade” física e cultural. Nesta perspetiva, é possível alargar as fronteiras do “nós” até ao horizonte do “todos” e redescobrir a base fundamental da vida social.

sexta-feira, 27 de junho de 2025


 MENSAGEM DO PAPA LEÃO XIV

POR OCASIÃO DO DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO 

PELA SANTIFICAÇÃO DOS SACERDOTES

[27 de junho de 2025 - Solenidade do Sagrado Coração de Jesus]

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Queridos irmãos no sacerdócio!

Neste dia mundial de oração pela santificação dos sacerdotes, que se celebra na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, dirijo-me a cada um de vós com sentimentos de gratidão e de grande confiança.

O Coração de Cristo, trespassado por amor, é a carne viva e vivificante que acolhe cada um de nós, transformando-nos à imagem do Bom Pastor. É ali que se compreende a verdadeira identidade do nosso ministério: ardentes da misericórdia de Deus, somos testemunhas alegres do seu amor que cura, acompanha e redime.

Por isso, a festa de hoje renova nos nossos corações o chamamento ao dom total de nós mesmos no serviço do povo santo de Deus. Esta missão começa com a oração e continua na união com o Senhor, que continuamente reaviva em nós o seu dom: a santa vocação ao sacerdócio.

Fazer memória desta graça, como afirma Santo Agostinho, significa entrar num «santuário amplo e sem limites» (Confissões, X, 8.15), que não se limita a conservar algo do passado, mas torna sempre novo e atual o que aí está guardado. Só fazendo memória é que vivemos e fazemos reviver o que o Senhor nos entregou, pedindo-nos que, por nossa vez, o transmitíssemos em seu nome. A memória unifica o nosso coração no Coração de Cristo e a nossa vida na vida de Cristo, para que nos tornemos capazes de levar a Palavra e os Sacramentos da salvação ao povo santo de Deus, a fim de termos um mundo reconciliado no amor. Só no Coração de Jesus encontramos a nossa verdadeira humanidade de filhos de Deus e de irmãos entre nós. Por estas razões, gostaria de vos dirigir hoje um convite urgente: sede construtores de unidade e de paz!

Num mundo marcado por crescentes tensões, mesmo no seio das famílias e das comunidades eclesiais, o sacerdote é chamado a promover a reconciliação e a gerar comunhão. Ser construtores de unidade e de paz significa ser pastores capazes de discernimento, hábeis na arte de compor os fragmentos de vida que nos são confiados, para ajudar as pessoas a encontrar a luz do Evangelho no meio das tribulações da existência; significa ser leitores sábios da realidade, indo para além das emoções do momento, dos medos e das modas; significa oferecer propostas pastorais que geram e regeneram a fé, construindo boas relações, laços de solidariedade, comunidades onde brilha o estilo da fraternidade. Ser construtores de unidade e de paz não significa impor-se, mas servir. Em particular, a fraternidade sacerdotal torna-se um sinal crível da presença do Senhor Ressuscitado entre nós quando caracteriza o caminho comum dos nossos presbitérios.

Convido-vos, por isso, a renovar hoje, diante do Coração de Cristo, o vosso “sim” a Deus e ao seu povo santo. Deixai-vos plasmar pela graça, acalentai o fogo do Espírito recebido na Ordenação, para que, unidos a Ele, sejais sacramento do amor de Jesus no mundo. Não tenhais medo da vossa fragilidade: o Senhor não procura sacerdotes perfeitos, mas corações humildes, abertos à conversão e prontos a amar como Ele mesmo nos amou.

Queridos irmãos sacerdotes, o Papa Francisco propôs-nos de novo a devoção ao Sagrado Coração como espaço de encontro pessoal com o Senhor (cf. Carta Encíclica Dilexit nos, 103), ou seja, como lugar onde podemos levar e resolver os nossos conflitos interiores e os que dilaceram o mundo contemporâneo, pois «n’Ele tornamo-nos capazes de nos relacionarmos uns com os outros de forma saudável e feliz, e de construir neste mundo o Reino de amor e de justiça. O nosso coração unido ao de Cristo é capaz deste milagre social» (ibid., 28).

Ao longo deste Ano Santo, que nos convida a ser peregrinos de esperança, o nosso ministério será tanto mais fecundo quanto mais enraizado estiver na oração, no perdão, na proximidade aos pobres, às famílias e aos jovens em busca da verdade. Não esqueçais: um sacerdote santo faz florescer, à sua volta, a santidade.

Confio-vos a Maria, Rainha dos Apóstolos e Mãe dos Sacerdotes, e a todos abençoo de coração.

Vaticano, 27 de junho de 2025

LEÃO PP. XIV

sexta-feira, 13 de junho de 2025


O “Pão de Santo António” tem sua origem num facto curioso que se conta a respeito de Santo António.

Diz que ele se comovia tanto com a pobreza que, certa vez, distribuiu aos pobres todo o pão do Convento em que vivia. O irmão padeiro ficou em apuros, quando, na hora da refeição, percebeu que os frades não tinham o que comer.

Atónito, o irmão, foi contar ao santo o ocorrido, porque pensava que alguém tivesse roubado o pão. Santo António mandou que o irmão padeiro verificasse melhor o lugar em que tinha deixado o pão. Para sua surpresa e alegria, encontrou os cestos transbordando de pão, em tanta quantidade que foram distribuídos pelos frades e pelos pobres do Convento.

Junto à piedade há também uma espiritualidade: o pão consolida-se na partilha.

Só quem o distribui se habilita a recebê-lo. Ele lembrará sempre que haverá multiplicação onde houver amor. E cada pedaço de pão trará consigo o sinal do Pão Vivo, descido do céu, Jesus, tornado Eucaristia, pão partilhado, para todo ser humano.

domingo, 1 de junho de 2025

 


Palavra de Vida

Junho de 2025

Silvano Malini e equipa da Palavra de Vida

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

Estamos num lugar solitário, nos arredores de Betsaida, na Galileia. Jesus está a falar do Reino de Deus a uma multidão numerosa. O Mestre tinha-se deslocado para aqui com os apóstolos para os fazer repousar, depois de uma longa missão naquela região, na qual tinham pregado a conversão “anunciando a Boa-Nova e realizando curas por toda a parte” [Lc 9,6]. Cansados, mas com o coração cheio, contavam o que tinham vivido.

As pessoas, porém, tendo-o sabido, dirigiram-se para lá. Jesus acolhe-as a todas: escuta, fala, cura. A multidão aumenta. A noite aproxima-se e a fome faz-se sentir. Os apóstolos preocupam-se e propõem ao Mestre uma solução lógica e realista: «Despede a multidão, para que, indo pelas aldeias e campos em redor, encontre alimento e onde pernoitar». Afinal de contas, Jesus já tinha feito muito… Mas Ele responde:

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

Ficam estupefactos. Está fora de questão: têm só cinco pães e dois peixes para alguns milhares de pessoas. Não é possível encontrar o necessário na pequena Betsaida, e não teriam dinheiro para o comprar.

Jesus quer abrir-lhes os olhos. As necessidades e os problemas das pessoas tocam-no e esforça-se por lhes dar uma solução. Realiza-a partindo da realidade e valorizando aquilo que têm. É verdade, aquilo que têm é pouco, mas chama-os a uma missão: serem instrumentos da misericórdia de Deus que pensa nos seus filhos. O Pai intervém, e, todavia, “precisa” deles.

O milagre “precisa” da nossa iniciativa e da nossa fé, que depois fará crescer. 

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

Portanto, à objeção dos apóstolos, Jesus responde assumindo a situação, mas pede-lhes que façam a própria parte. Mesmo se pequena, não a desdenha. Não resolve o problema por eles. O milagre acontece, mas requer a participação deles com tudo aquilo que têm e que puderam providenciar, colocado à disposição de Jesus para todos. Isto implica um certo sacrifício e confiança Nele.

O Mestre parte daquilo que nos acontece para nos ensinar a cuidar juntos uns dos outros. Diante das necessidades dos outros, não nos podemos desculpar (“não é da nossa conta”, “não posso fazer nada”, “que se arranjem, como todos fazemos…”). Na sociedade pensada por Deus, são felizes aqueles que dão de comer aos que têm fome, que vestem os pobres, que visitam quem se encontra em necessidade [Cf. Mt 25,35-40].

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

A narração deste episódio recorda a imagem do banquete descrito no livro de Isaías, oferecido pelo próprio Deus a todos os povos, quando Ele «enxugará as lágrimas de todas as faces» [Is 25,8]. Jesus manda que se sentem em grupos de cinquenta, como nas grandes ocasiões. Como Filho, comporta-se como o Pai, e isso realça a sua divindade.

Ele mesmo dará tudo, até se fazer alimento para nós, na Eucaristia, o novo banquete da partilha. 

Diante das muitas necessidades surgidas durante a pandemia de covid-19, a comunidade dos Focolares de Barcelona criou um grupo, através das redes sociais, no qual se partilhavam as necessidades e se metiam em comum bens e recursos. E é impressionante ver como circulam móveis, alimentos, medicamentos, eletrodomésticos… Porque «sozinhos podemos fazer pouco», dizem, «mas juntos podemos fazer muito». Ainda hoje o grupo “Fent família” ajuda a fazer com que, como nas primeiras comunidades cristãs, ninguém entre eles seja necessitado [Cf. At 4,34].

segunda-feira, 12 de maio de 2025


DISCURSO DO PAPA LEÃO XIV

AOS AGENTES DA COMUNICAÇÃO

Sala Paulo VI

Segunda-feira, 12 de maio de 2025

Bom dia e obrigado por esta maravilhoso acolhimento! Dizem que quando se aplaude ao início não importa muito... Se estiverdes ainda despertos ao final e quiserdes aplaudir... muito obrigado!

Irmãos e irmãs!

A todos vós, representantes dos meios de comunicação social do mundo inteiro, dou as boas-vindas. Agradeço o trabalho que realizastes e realizais neste tempo que, para a Igreja, é essencialmente um tempo de Graça.

No “Sermão da Montanha”, Jesus proclamou: «Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9). Esta é uma bem-aventurança que nos interpela a todos e vos diz respeito de perto, chamando cada um ao compromisso de levar adiante uma comunicação diferente, que não procura o consenso a qualquer custo, que não se reveste de palavras agressivas, que não adere ao modelo da competição, que nunca separa a busca da verdade do amor com que humildemente a devemos procurar. A paz começa em cada um de nós: na forma como olhamos para os outros, ouvimos os outros, falamos dos outros; e, neste sentido, a forma como comunicamos adquire uma importância fundamental: temos de dizer “não” à guerra das palavras e das imagens, temos de rejeitar o paradigma da guerra.

Permiti-me, então, que hoje reitere a solidariedade da Igreja para com os jornalistas presos por terem procurado relatar a verdade, e que, com estas palavras, peça a libertação desses jornalistas que se encontram na prisão. A Igreja reconhece nestes testemunhos - penso naqueles que narram a guerra mesmo à custa da própria vida - a coragem de quem defende a dignidade, a justiça e o direito dos povos a serem informados, porque só os povos informados podem fazer escolhas livres. O sofrimento destes jornalistas presos interpela a consciência das nações e da comunidade internacional, chamando-nos a todos a salvaguardar o bem precioso da liberdade de expressão e de imprensa.

Obrigado, caros amigos, pelo vosso serviço à verdade. Estivestes em Roma nestas semanas para noticiar a Igreja, a sua variedade e, ao mesmo tempo, a sua unidade. Acompanhastes os ritos da Semana Santa; narrastes a dor pela morte do Papa Francisco que, porém, ocorreu à luz da Páscoa. Essa mesma fé pascal introduziu-nos no espírito do Conclave, que vos viu particularmente ocupados em dias cansativos; e, também nesta ocasião, conseguistes narrar a beleza do amor de Cristo que nos une a todos e faz de nós um só povo, guiado pelo Bom Pastor.

Vivemos tempos difíceis de atravessar e narrar, que representam um desafio para todos nós, do qual não devemos fugir. Pelo contrário, estes tempos pedem a cada um de nós, nas nossas diferentes funções e serviços, que nunca cedamos à mediocridade. A Igreja deve aceitar o desafio do tempo e, do mesmo modo, não pode haver comunicação e jornalismo fora do tempo e da história. Como nos recorda Santo Agostinho, que dizia: «Vivamos bem e os tempos serão bons! Nós somos os tempos» (Sermão 80, 8).

Obrigado, portanto, pelo que fizestes para sair dos estereótipos e dos clichés através dos quais muitas vezes lemos a vida cristã e a vida da própria Igreja. Obrigado, porque conseguistes captar o essencial daquilo que somos e transmiti-lo por todos os meios ao mundo inteiro.

Hoje, um dos desafios mais importantes é promover uma comunicação capaz de nos fazer sair da “torre de Babel” em que, por vezes, nos encontramos, sair da confusão de linguagens sem amor, muitas vezes ideológicas ou sectárias. Por isso, o vosso serviço, com as palavras que usais e o estilo que empregais, é importante. Com efeito, a comunicação não é apenas a transmissão de informações, mas a criação de uma cultura, de ambientes humanos e digitais que se tornam espaços de diálogo e de confronto de ideias. E, olhando para a evolução tecnológica, esta missão torna-se ainda mais necessária. Penso, particularmente, na inteligência artificial com o seu imenso potencial que, no entanto, exige responsabilidade e discernimento para orientar as ferramentas para o bem de todos, a fim de que possam produzir benefícios para a humanidade. E esta responsabilidade diz respeito a todos, em proporção à idade e aos papéis sociais.

Caros amigos, com o tempo aprenderemos a conhecer-nos melhor. Temos vivido – podemos dizer juntos – dias muito especiais. Partilhámo-los com todos os meios de comunicação: televisão, rádio, Internet e redes sociais. Gostaria que cada um de nós pudesse dizer que estes meios nos revelaram um pouco do mistério da nossa humanidade e que nos deixaram um desejo de amor e de paz. É por isso que vos repito hoje o convite feito pelo Papa Francisco na sua última mensagem para o próximo Dia Mundial das Comunicações Sociais: desarmemos a comunicação de todos os preconceitos, rancores, fanatismos e ódios; limpemo-la da agressividade. Não precisamos de uma comunicação beligerante e musculosa, mas sim de uma comunicação capaz de escutar, de recolher a voz dos fracos que não têm voz. Desarmemos as palavras e ajudaremos a desarmar a Terra. Uma comunicação desarmada e desarmante permite-nos partilhar uma visão diferente do mundo e agir de forma coerente com a nossa dignidade humana

Vós estais na linha da frente, narrando conflitos e esperanças de paz, situações de injustiça, de pobreza, e o trabalho silencioso de tantos por um mundo melhor. É por isso que vos peço que escolhais, de forma consciente e corajosa, o caminho da comunicação da paz.

Obrigado a todos vós. Deus vos abençoe! 

domingo, 11 de maio de 2025


 OMELIA DEL SANTO PADRE

LEONE XIV

NELLA CRIPTA DELLA BASILICA DI SAN PIETRO

Domenica, 11 maggio 2025


Comincerò con una parola in inglese e poi magari un'altra in italiano.

Il Vangelo che abbiamo appena ascoltato, in questa domenica del Buon Pastore, dice: «Le mie pecore ascoltano la mia voce e io le conosco ed esse mi seguono» (Gv 10,27).

Penso al Buon Pastore, soprattutto nella domenica odierna, così significativa nel Tempo Pasquale. Mentre celebriamo l'inizio di questa nuova missione, del ministero a cui la Chiesa mi ha chiamato, non c'è esempio migliore di Gesù Cristo stesso, al quale diamo la nostra vita e da cui dipendiamo. Gesù Cristo, che seguiamo, è il Buon Pastore, ed è Colui che ci dà la vita: «la via, la verità e la vita» (Gv 14,6).

Perciò celebriamo con gioia questo giorno e apprezziamo molto la vostra presenza qui.

Oggi è la Festa della Mamma. Credo che ci sia solo una mamma presente: buona Festa della Mamma! Una delle espressioni più belle dell'amore di Dio è l'amore che viene riversato dalle mamme, soprattutto sui loro figli e nipoti.

Questa domenica è detta speciale per diversi motivi: uno dei primi che menzionerei è quello delle vocazioni. Durante i recenti lavori dei Cardinali, prima e dopo l’elezione del nuovo Papa, abbiamo parlato molto delle vocazioni nella Chiesa e di quanto sia importante che tutti noi ci interroghiamo insieme. Anzitutto e soprattutto dando il buon esempio con la nostra vita, con gioia, vivendo la gioia del Vangelo, non scoraggiando gli altri, ma cercando piuttosto modi per animare i giovani ad ascoltare la voce del Signore, a seguirla e a servire nella Chiesa. «Io sono il Buon Pastore» (Gv10,11), ci dice Gesù.

Adesso aggiungo una parola anche in italiano, perché questa missione che portiamo avanti non è più rivolta a una sola diocesi ma a tutta la Chiesa: è importante questo spirito universale. E lo troviamo anche nella prima Lettura che abbiamo ascoltato (cfr At 13,14.43-52). Paolo e Barnaba vanno ad Antiochia, vanno prima dai giudei, ma loro non vogliono ascoltare la voce del Signore, e cominciano allora ad annunciare il Vangelo a tutto il mondo, ai pagani. Partono, come sappiamo, per questa grande missione. San Paolo viene a Roma, dove alla fine lui la compie. Un altro esempio di testimonianza di un buon pastore. Ma in quell’esempio c’è anche un invito molto speciale a tutti noi. Lo dico anche in una maniera molto personale; annunciare il Vangelo a tutto il mondo.

Coraggio! Senza paura! Tante volte Gesù dice nel Vangelo: “Non abbiate paura!”. Bisogna essere coraggiosi nella testimonianza che diamo, con la parola e soprattutto con la vita: dando la vita, servendo, qualche volta con grandi sacrifici, per vivere proprio questa missione.

Ho letto una piccola riflessione che mi fa pensare molto, perché anche nel Vangelo viene fuori. In questo senso, qualcuno ha domandato: “Quando tu pensi alla tua vita, come spieghi dove sei arrivato?”. La risposta che danno in questa riflessione in un certo senso è anche la mia: con il verbo “ascoltare”. Quanto è importante ascoltare! Gesù dice: «Le mie pecore ascoltano la mia voce» (Gv 10,27). E penso che sia importante che tutti noi impariamo sempre di più ad ascoltare, per entrare in dialogo. Anzitutto con il Signore: ascoltare sempre la Parola di Dio. Poi anche ascoltare gli altri: sapere costruire i ponti, sapere ascoltare per non giudicare, non chiudere le porte, pensando che noi abbiamo tutta la verità e nessun altro può dirci niente. È molto importante ascoltare la voce del Signore, ascoltarci, in questo dialogo, e vedere verso dove il Signore ci sta chiamando.

Camminiamo insieme nella Chiesa, chiediamo al Signore che ci dia questa grazia: di poter ascoltare la sua Parola per servire tutto il suo popolo.

PAPA LEÃO XIV

REGINA CAELI

Balcão central da Basílica de São Pedro

Domingo, 11 de maio de 2025

Caros irmãos e irmãs: Bom Domingo!

Considero um dom de Deus que o primeiro Domingo do meu serviço como Bispo de Roma seja o Domingo do Bom Pastor, o quarto Domingo do Tempo Pascal. Neste Domingo, proclamamos sempre na Missa uma passagem do capítulo décimo do Evangelho de João, na qual Jesus se revela como o verdadeiro Pastor, que conhece e ama as suas ovelhas e dá a vida por elas.

Neste domingo é celebrado, há sessenta e dois anos, o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Além disso, Roma acolhe hoje o Jubileu das Bandas e do Espetáculo Popular. Saúdo com afeto todos estes peregrinos e agradeço-lhes porque, com a sua música e as suas apresentações artísticas, alegram a festa de Cristo Bom Pastor: sim, é Ele que guia a Igreja com o seu Espírito Santo.

Jesus afirma no Evangelho que conhece as suas ovelhas e que elas escutam a sua voz e O seguem (cf. Jo 10, 27). Com efeito, como ensina o Papa São Gregório Magno, as pessoas «correspondem ao amor daquele que as ama» (Homilia 14, 3-6).

Hoje, portanto, irmãos e irmãs, tenho a alegria de rezar convosco e com todo o Povo de Deus pelas vocações, especialmente pelas vocações sacerdotais e religiosas. A Igreja tem grande necessidade delas! E é importante que os jovens e as jovens encontrem, nas nossas comunidades, acolhimento, escuta e encorajamento no seu caminho vocacional, e que possam contar com modelos críveis de dedicação generosa a Deus e aos irmãos.

Façamos nosso o convite que o Papa Francisco nos deixou na sua Mensagem para o dia de hoje: o convite a acolher e acompanhar os jovens. E peçamos ao nosso Pai celeste que sejamos uns para os outros, cada um segundo a sua condição, pastores «segundo o seu coração» (cf. Jr 3,15), capazes de se ajudarem mutuamente a caminhar no amor e na verdade. E aos jovens eu digo: Não tenhais medo! Aceitai o convite da Igreja e de Cristo Senhor.

Que a Virgem Maria, cuja vida inteira foi uma resposta ao chamamento do Senhor, nos acompanhe sempre no seguimento de Jesus.