sábado, 13 de junho de 2026

MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV

AOS SACERDOTES POR OCASIÃO DO

DIA DA SANTIFICAÇAO DOS SACERDOTES

[Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, 12 de junho de 2026]

Queridos irmãos sacerdotes,

no dia em que a Igreja contempla o Coração trespassado do seu Senhor, do qual brota uma fonte inesgotável de paz e unidade para todo o género humano, dirijo, em primeiro lugar, a mim mesmo e a todos vós as palavras que Deus disse ao povo de Israel: «Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo» (Lv 19, 2; cf. 1 Pt 1, 16). Este chamamento divino percorre os séculos, ressoando também hoje com força para todos os crentes e, de forma particularmente exigente, para nós, sacerdotes. A santidade não é uma opção entre tantas outras, nem um ideal abstrato: ela interpela a própria identidade de toda pessoa que deseja participar na vida do Ressuscitado.

A santidade é participação no mistério de Cristo

Deus convida-nos a participar na sua própria santidade. Quando nos chama a ser santos porque Ele é santo, indica-nos o caminho a seguir: deixarmo-nos moldar segundo o seu Coração. E para nós, caríssimos irmãos, este chamamento é particularmente radical. O Senhor prometeu: «Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos conduzirão com inteligência e sabedoria» (Jr 3, 15). A santidade que nos é pedida é um abandono confiante: deixarmo-nos transformar pelo seu Espírito Santo. No entanto, é precisamente aqui que surge o grande paradoxo da nossa vida sacerdotal: somos chamados a participar na própria santidade de Deus, mas trazemos este tesouro em vasos de barro (cf. 2 Cor 4, 7), somos limitados e imperfeitos, muitas vezes marcados por fraquezas e cansaços e, não raro, por feridas. Como pode um coração humano, tão vulnerável, responder a um chamamento tão elevado? O sacerdote vive esta tensão, mas sabe onde encontrar a paz: no peito aberto do Senhor Jesus.

Um caminho de união

A união do nosso coração com o Coração de Cristo não é uma experiência reservada a alguns poucos eleitos, mas um caminho sacramental, eucarístico, que se concretiza no dia-a-dia. Caríssimos irmãos, na Ordenação fomos configurados a Cristo, mas é preciso sempre reavivar em nós o dom da graça através da celebração diária da Eucaristia, da oração, da meditação da Palavra de Deus e do serviço humilde aos irmãos e irmãs. Permaneçamos unidos a Cristo em tudo: no que fazemos e no que nos acontece diariamente. Então a santidade, procurada em vão com esforços isolados, revelar-se-á pelo que é: correspondência à graça que nos precede, sustenta e transfigura. Com efeito, não existem compartimentos separados na nossa humanidade. A oração, o ministério, as relações, o cansaço, as alegrias e os fracassos, até mesmo o tempo aparentemente perdido ou o amor que parece desperdiçado, tudo se torna um lugar privilegiado para a revelação de Deus e do seu amor infinito.

O sacerdote com um coração íntegro, simples e puro é contemplativo no meio da ação, misericordioso, fiel na provação, alegre na entrega de si mesmo. O mundo tem uma grande necessidade de pastores que não ofereçam apenas palavras ou programas, mas o testemunho vivo dum coração reconciliado, espalhando o bom perfume da santidade de Cristo. Uma vida sacerdotal firme e configurada com o Coração de Jesus é sinal credível de unidade, paz e misericórdia. Assim, num tempo marcado por divisões e medos, podemos ser construtores de paz, testemunhas da ternura do Bom Pastor, que sabe reunir os dispersos e cuidar dos feridos, e o nosso zelo não é agitação, mas o transbordar dum amor que «é êxtase, é saída, é dom, é encontro» (FranciscoCarta enc. Dilexit nos, 28).

O Coração de Cristo é o coração dos santos

A resposta à vocação para ser santos não está tanto no esforço de ascetismo e perfeição, embora necessário, mas na adesão confiante ao amor revelado no Coração trespassado de Jesus. O apóstolo João faz-nos contemplar o peito aberto do Crucificado (cf. Jo 19, 34), no qual Deus nos mostra definitivamente como Ele é santo: não na distância inacessível duma perfeição separada, mas num amor que se doa ao ponto de se deixar ferir, tornando-se assim fonte de misericórdia e de vida. O Sagrado Coração de Jesus é o ícone por excelência do amor de Deus: um amor todo-poderoso precisamente porque capaz de se fazer vulnerável, de transformar a dor em graça e o sofrimento em esperança.

Esse Coração abençoado é, portanto, o “lugar” onde a santidade se mostra como proximidade e ternura. A santidade do sacerdote pode, assim, manifestar-se na proximidade humilde e corajosa, no ser de todos e para todos, mantendo aberta a porta do redil para que muitos possam entrar e encontrar pastagem e descanso (cf. Jo 10, 9). Por isso, é-nos pedida uma relação com Deus que não nos afaste dos homens, mas nos torne próximos de todos, que molde corações pacientes, ternurentos, capazes de proximidade, compaixão e escuta. Deste modo, através da união do nosso coração imperfeito com o Coração trespassado de Jesus, realiza-se o nosso caminho de santidade. Já não somos nós que vivemos, mas é Cristo que vive em nós (cf. Gl 2, 20). Uma santidade assim não se vive a sós. Zelai pela fraternidade presbiteral: procurai-vos, escutai-vos, ajudai-vos uns aos outros. O sacerdote que se isola, apaga-se lentamente; o sacerdote que caminha com os irmãos cresce. Santo Agostinho recorda-nos: «Como podemos não nos encontrar nas trevas? Amando os irmãos. Qual é a prova de que amamos os irmãos? Esta: não destruir a unidade e praticar a caridade» (In Epist. Io. ad Parthos II, 3).

Caríssimos sacerdotes, renovai todos os dias o vosso “eis-me aqui” perante o Coração trespassado de Cristo. Entregai-vos totalmente a Ele, para que possais amar o seu povo com o mesmo amor com que Ele o ama. E lembrai-vos com alegria, como gostava de repetir o Santo Cura d’Ars, que «o sacerdócio é o amor do Coração de Jesus» (cf. Bento XVICarta para a Proclamação de um Ano Sacerdotal [16 de junho de 2009]: AAS 101 [2009], 569). Este amor é penhor e garantia de que nada de nós se perderá, se tudo for entregue e oferecido. Confio todos e cada um à Virgem Maria, Mãe dos Sacerdotes. Ela, que guardou no seu coração o mistério do Filho, nos ensine a conservar e a deixar pulsar em nós o Coração de Cristo, Salvador do mundo.

12 de junho de 2026, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus.

LEÃO PP. XIV

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Palavra de Vida

Junho de 2026

Augusto Parody Reyes  e equipa da Palavra de Vida 

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

Neste capítulo do Evangelho de Mateus, os apóstolos tinham sido escolhidos por Jesus, que os chamou pelo nome, conferindo-lhes poderes especiais para expulsar os espíritos impuros e o dom de curar toda a espécie de doenças e enfermidades. Jesus dá-lhes instruções sobre onde e como realizar a sua missão inicial. A mensagem que devem anunciar é clara: «Está perto o reino dos Céus» (Mt 10,7).

A indicação de proclamar “pelo caminho” a mensagem que lhes foi confiada, sublinha, por um lado, que o verdadeiro discípulo é, antes de mais, um pregador da proximidade, e, por outro lado, que o próprio modo de caminharem juntos deve ser anúncio. De facto, no Evangelho de João, a seguir à entrega do mandamento novo, Jesus afirma: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35).

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

O “reino dos Céus” é o coração do anúncio de Jesus. A expressão similar “reino de Deus” é usada no Antigo Testamento para indicar o domínio, o governo e a ação salvífica de Deus na história humana. Ele é o Senhor do mundo e sobretudo do povo de Israel, na expetativa de um descendente do rei David que restabelecerá o papel de Israel no meio dos povos. No Novo Testamento, Jesus é apresentado como o descendente de David e, portanto, rei. Diversamente dos reinos do mundo, o “reino dos Céus” é um reino de paz e de justiça, em que se cuida dos pobres, em que vigoram o perdão e a reconciliação e que levará vida e luz a todas as nações. Trata-se de um reino que já começou no mundo e no coração das pessoas, mas que verá a sua realização completa no regresso de Jesus.

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

Jesus anuncia que o reino está temporalmente “perto”, iminente. Pelas parábolas, como a do grão de mostarda e a do fermento que leveda toda a massa, compreende-se que ele atua de modo misterioso e humilde, mas tenaz, no decurso do tempo. “Perto” entende-se também no sentido geográfico. Quando os discípulos, que levam a presença do espírito de Jesus, se aproximam caminhando, aproxima-se o reino de Deus. Também no Evangelho de Marcos, quando Jesus diz ao escriba «Não estás longe do Reino de Deus» (Mc 12,34), é provável que quisesse dizer não apenas “Começaste a entender”, mas também “Não estás longe de mim”.

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

“De graça” traduz um termo que no original grego significa “como um presente”. Isto torna evidente que tudo o que os apóstolos receberam não lhes foi dado porque o mereciam. A fonte é a generosidade de Deus e o facto que foram escolhidos para uma missão específica.

Escreveu Chiara Lubich: «O reino de Deus é para ser acolhido. É um dom que Deus te faz. De facto, não há nenhum esforço humano, nenhuma tentativa ascética, nenhum estudo ou investigação intelectual, que te levem a entrar no reino de Deus. É o próprio Deus que vem ao teu encontro, que se revela com a Sua luz ou te toca com a sua graça. E não há nenhum mérito de que te possas vangloriar ou sobre o qual te possas apoiar para ter direito a um tal dom de Deus. O reino de Deus é-te oferecido gratuitamente» (Cfr. C. Lubich, Parole di Vita, a/c di Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, pp. 152-153). Neste acolhimento somos chamados, também hoje, a continuar a missão confiada por Jesus aos apóstolos, a proclamar, com a palavra e com os factos, a proximidade do reino, a anunciar juntos, a todos os seres humanos, uma mensagem de esperança: Deus ama imensamente este nosso mundo tão conturbado e incerto, Deus ama-nos a todos imensamente.

sábado, 23 de maio de 2026

Venerável Servo de Deus

MARCELINO LÓPEZ HERNANDO (Bautista Maria)

e 48 Companheiros, Religiosos e Mártires

12 de Novembro

Nasceu em 20 de Abril de 1900.

Fez sua profissão perpétua em 6 de Agosto de 1924, no Instituto dos Irmãos da Instrução Cristã de São Gabriel.

A comunidade de Montcada i Reixac (Barcelona) era composta por 28 Irmãos, incluindo 16 escolásticos, 24 noviços e postulantes, 40 juniores e o capelão.

A eles se juntaram 16 Irmãos de outras comunidades.

Em 7 de novembro de 1936, enquanto os religiosos estavam em oração, foram colocados em autocarro e levados para a prisão em Barcelona. Os de nacionalidade francesa foram libertados após a intervenção do seu Cônsul, enquanto os restantes (40) foram presos, transportados para o cemitério de Montcada e brutalmente assassinados por ódio à fé, unicamente por se manterem fiéis à sua vocação religiosa, a 12 de Novembro de 1936.

Tinha 36 anos de idade a quando do martírio.

A 27 de abril de 2026, o Santo Padre o Papa Leão XIV autorizou a promulgação do Decreto relativo ao Martírio.

Aguarda-se a divulgação da data e local da cerimónia de Beatificação.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Venerável Servo de Deus

Marcelino Pedro Lucio Gutiérrez-Cañas,

leigo e mártir

20 de Setembro

Na presente sexta-feira, 22 de Maio, o Santo Padre, o Papa Leão XIV recebeu em audiência Sua Eminência o Cardeal Marcello Semeraro, Prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos. Durante a audiência, o Sumo Pontífice autorizou o mesmo Dicastério a promulgar, ente outros decretos, o martírio de um grupo de 80 Servos de Deus da diocese de Santander (Espanha): 67 sacerdotes, 3 religiosos, 3 seminaristas e 7 leigos, vítimas da perseguição religiosa desencadeada na zona republicana entre 1936 e 1937, no norte da Espanha, Santander.

Entre eles, encontra-se o leigo Marcelino Pedro Lucio Gutiérrez-Cañas, lançado ao Mar Cantábrico com as mãos e os pés amarrados e uma pedra presa ao corpo, a 20 de Setembro de 1936.

Aguarda-se a divulgação da data e local da cerimónia de Beatificação.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II

EM PERSPECTIVA DO

41º DIA MUNDIAL DE ORAÇÕES

PELAS VOCAÇÕES

2 de Maio de 2004

Venerados Irmãos no Episcopado

Caríssimos Irmãos e Irmãs

         1. "Por isso, pedi ao senhor da messe que mande trabalhadores para a sua messe" [1].

         Destas palavras de Jesus, dirigidas aos Apóstolos, sobressai o primor que o Bom Pastor sempre manifesta pelas suas ovelhas. Ele realiza tudo isto, para que elas "tenham vida e a tenham em abundância"[2]. Depois da sua ressurreição, o Senhor confiará aos discípulos a responsabilidade de dar continuidade à sua própria missão, porque o Evangelho seja anunciado aos homens de todos os tempos. E são muitos os que, com generosidade, responderam e continuam a responder ao seu convite constante:  "Segui-me!"[3]. Trata-se de homens e de mulheres que aceitam colocar a existência totalmente ao serviço do seu Reino.

         Por ocasião do próximo 41º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, tradicionalmente marcada para o IV Domingo de Páscoa, todos os fiéis se unirão em oração ardente pelas vocações ao sacerdócio, à vida consagrada e ao serviço missionário. Com efeito, o nosso primeiro dever consiste em pedir ao "senhor da messe", por quantos já seguem Cristo mais de perto na vida presbiteral e religiosa, e por aqueles que Ele, na sua misericórdia, não cessa de chamar para estes importantes múnus eclesiais.

         2. Rezemos pelas vocações!

         Na Carta Apostólica «Novo millennio ineunte» observei que "se verifica hoje, não obstante os vastos processos de secularização, uma generalizada exigência de espiritualidade, que em grande parte se exprime precisamente numa renovada carência de oração"[4]. É nesta "carência de oração" que se insere o nosso pedido coral ao Senhor, a fim de que "mande trabalhadores para a sua messe".

         Constato com alegria que, em muitas Igrejas particulares, se formam cenáculos de oração pelas vocações. Nos Seminários maiores e nas Casas de formação dos Institutos religiosos e missionários já se realizam encontros com esta finalidade. Numerosas famílias são pequenos "cenáculos" de oração, que ajudam os jovens a responder com coragem e generosidade ao apelo do Mestre divino.

         Sim! A vocação ao serviço exclusivo de Cristo na sua Igreja constitui um dom inestimável da bondade divina, dom este que se há-de implorar com insistência e humildade confiante. O cristão deve abrir-se-lhe cada vez mais, permanecendo atento a fim de não desperdiçar "o tempo da graça" e "o tempo da visita"[5].

A oração ligada ao sacrifício e ao sofrimento reveste um valor particular. O sofrimento, vivido como cumprimento daquilo que falta à sua própria carne, "aos sofrimentos de Cristo, a favor do seu Corpo, que é a Igreja"[6], torna-se uma forma de intercessão mais eficaz do que nunca. Muitos doentes, em todas as partes do mundo, unem os seus sofrimentos à Cruz de Jesus, para implorar vocações santas! Eles acompanham-me espiritualmente também a mim, no ministério petrino que Deus me confiou, e oferecem à causa do Evangelho uma contribuição inestimável, embora muitas vezes de modo totalmente oculto.

         3. Oremos  pelas  pessoas  que  são chamadas  ao  sacerdócio  e  à  vida consagrada!

         Formulo votos cordiais, a fim de que se intensifique cada vez mais a oração pelas vocações. Que esta oração seja adoração do mistério de Deus e acção de graças pelas "maravilhas" que Ele realizou e não cessa de levar a cabo, apesar da debilidade dos homens. Oração contemplativa, impregnada de admiração e de acção de graças pela dádiva das vocações.

         No cerne de todas as iniciativas de oração encontra-se a Eucaristia. O sacramento do Altar tem um valor decisivo para o nascimento das vocações e para a sua perseverança, para que do sacrifício redentor de Cristo as pessoas chamadas possam haurir a força para se dedicar totalmente ao anúncio do Evangelho. À celebração eucarística, é bom que se una a adoração do Santíssimo Sacramento, prolongando de certa maneira o mistério da Santa Missa. Contemplar Cristo, presente real e substancialmente sob as espécies do pão e do vinho, pode suscitar no coração de quem é chamado ao sacerdócio ou a uma missão especial na Igreja, o mesmo entusiasmo que levou Pedro, no monte da Transfiguração, a exclamar:  "Senhor, é bom ficarmos aqui"[7]. Trata-se de um modo privilegiado de contemplar o rosto de Cristo, com Maria e na escola de Maria que, com a sua atitude interior, pode qualificar-se como "mulher "eucarística"[8].

         Possam todas as comunidades cristãs tornar-se "autênticas escolas de oração", onde se reze a fim de que não faltem trabalhadores no vasto campo do trabalho apostólico. Além disso, é necessário que a Igreja acompanhe com constante primor espiritual as pessoas chamadas por Deus e que "seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá"[9]. Refiro-me aos sacerdotes, às religiosas, aos religiosos, aos eremitas, às virgens consagradas, aos membros dos Institutos seculares, em síntese, a todos aqueles que receberam o dom da vocação e trazem "este tesouro... em vasos de barro"[10]. No Corpo místico de Cristo existe uma grande variedade de ministérios e carismas[11], e todos têm como finalidade a santificação do povo cristão. Na aspiração recíproca à santidade, que deve animar todos os membros da Igreja, é indispensável rezar a fim de que "as pessoas chamadas" permaneçam fiéis à sua vocação e alcancem a mais alta medida possível de perfeição evangélica.

         4. A oração das pessoas chamadas.

         Na Exortação Apostólica pós-sinodal «Pastores dabo vobis», ressaltei que "uma exigência insuprimível da caridade pastoral à própria Igreja particular e do seu amanhã ministerial é a solicitude que o sacerdote deve ter para encontrar, por assim dizer, alguém que o substitua no sacerdócio"[12]. Portanto, consciente de que Deus chama quem Ele quer[13], cada ministro de Cristo deve procurar rezar com perseverança pelas vocações. Ninguém melhor do que ele é capaz de compreender a urgência de uma substituição geracional que garanta pessoas generosas e santas para o anúncio do Evangelho e a administração dos Sacramentos.

         Precisamente nesta perspectiva, é mais necessária do que nunca "a adesão espiritual ao Senhor e às próprias vocação e missão"[14]. É da santidade das pessoas chamadas que depende a força do seu testemunho, capaz de impelir outros indivíduos a confiar a sua própria vida a Cristo. Este é o modo de se opor à diminuição do número de vocações à vida consagrada, que ameaça a existência de muitas obras apostólicas, sobretudo nos Países de missão.

         Além disso, a oração das pessoas chamadas, sacerdotes e consagrados, reveste um valor especial, porque se insere na oração sacerdotal de Cristo. Através delas, Ele pede ao Pai a fim de que santifique e conserve no seu amor aqueles que, não obstante vivam neste mundo, não pertencem a este mundo[15].

         O Espírito Santo faça de toda a Igreja um povo de orantes, que levantem a sua voz ao Pai celestial, em ordem a implorar vocações santas para o sacerdócio e a vida consagrada. Oremos a fim de que, aqueles que o Senhor escolheu e chamou, sejam testemunhas fiéis e alegres do Evangelho, ao qual consagraram a sua existência.

         5. Dirigimo-nos confiantes a Vós, ó Senhor!

Filho de Deus,

enviado pelo Pai para junto

dos homens de todos os tempos

e de todas as partes da terra!

Invocamos-vos por meio de Maria,

vossa e nossa Mãe: 

fazei com que na Igreja

não faltem vocações,

em particular as de especial

consagração ao vosso Reino.

Jesus, único Salvador do mundo!

Pedimos-vos pelos nossos irmãos

e pelas nossas irmãs,

que responderam "sim"

ao vosso apelo

ao sacerdócio,

à vida consagrada

e à missão.

Fazei com que

as suas existências

se renovem no dia-a-dia,

tornando-se Evangelho vivo.

Senhor misericordioso e santo,

continuai a enviar

novos trabalhadores

para a messe do vosso Reino!

Ajudai aqueles

que Vós chamais

para o vosso seguimento

neste nosso tempo: 

fazei com que,

contemplando o vosso rosto,

eles respondam com alegria à maravilhosa missão,

que lhes confiais para o bem do vosso Povo

e de todos os homens.

Vós, que sois Deus,

viveis e reinais

com o Pai e o Espírito Santo,

nos séculos dos séculos.

Amém!

Vaticano, 23 de Novembro de 2003.



[1] Lc 10, 2

[2] Jo 10, 10

[3] Jo 21, 22

[4] Carta Apostólica «Novo millennio ineunte», n. 33.

[5] cf. Lc 19, 44

[6] Cl 1, 24

[7] Mt 17, 4; cf. Mt 9, 5; Lc 9, 33

[8] Carta Ap 14, 4

[9] Encíclica «Ecclesia de Eucharistia», 53

[10] 2 Cor 4, 7

[11] cf. 1 Cor 12, 12

[12] Exortação Apostólica pós-sinodal «Pastores dabo vobis», n.74

[13] cf. Mc 3, 13

[15] cf. Jo 17, 14-16

sexta-feira, 15 de maio de 2026


 Leão XIV, «HOMILIA»,

Santuário de Pompeia, 8/Maio/2026

         Estimados irmãos e irmãs!

         “A minha alma glorifica o Senhor”. Estas palavras, com as quais respondemos à primeira Leitura, brotam do coração da Virgem Maria quando apresenta a Isabel o fruto do seu ventre, Jesus, o Salvador. Depois dela, cantarão a Cristo Zacarias, pai de João Batista, e o idoso Simeão. Estes três cânticos marcam todos os dias o louvor da Igreja na Liturgia das Horas. São o olhar do antigo Israel, que vê cumpridas as suas promessas; são o olhar da Igreja Esposa, voltada para o seu Esposo divino; são implicitamente o olhar de toda a humanidade, que encontra resposta ao seu anseio de salvação.

         Há cento e cinquenta anos, colocando a primeira pedra deste Santuário, no lugar onde a erupção do Vesúvio em 79 d.C. tinha sepultado sob as cinzas os vestígios de uma grande civilização, protegendo-os durante séculos, São Bartolo Longo com a sua esposa, a condessa Marianna Farnararo De Fusco, lançaram as bases não só de um templo, mas de toda uma cidade mariana. Assim ele expressava a consciência de um desígnio de Deus, que São João Paulo II, falando neste lugar de graça a 7 de Outubro de 2003, na conclusão do Ano do Rosário, relançou para o Terceiro Milénio, na perspetiva da nova evangelização: «Hoje - disse - assim como nos tempos da antiga Pompeia, é necessário anunciar Cristo a uma sociedade que se afasta dos valores cristãos e perde até a sua memória».

         Há exatamente um ano, quando me foi confiado o ministério de Sucessor de Pedro, era precisamente o dia da Súplica à Virgem, este belíssimo dia da Súplica à Virgem do Santo Rosário de Pompeia! Portanto, eu tinha que vir aqui, para colocar o meu serviço sob o amparo da Santíssima Virgem. A escolha do nome Leão insere-me no sulco de Leão XIII que, entre outros méritos, desenvolveu um amplo Magistério sobre o Santo Rosário. A tudo isto acrescenta-se a recente canonização de São Bartolo Longo, apóstolo do Rosário. Este contexto oferece-nos uma chave para refletir sobre a Palavra de Deus que acaba de ser ouvida.

         O Evangelho da Anunciação introduz-nos no momento em que o Verbo de Deus se faz carne no seio de Maria. Deste ventre irradia a Luz que dá pleno sentido à história e ao mundo. A saudação que o anjo Gabriel dirige à Virgem é um convite a alegrar-se: «Alegra-te, cheia de graça»[1]. Sim, a Ave-Maria é um convite à alegria: diz a Maria, e nela a todos nós, que sobre as ruínas da nossa humanidade provada pelo pecado e, por isso, sempre inclinada para prevaricações, opressões e guerras, chegou a carícia de Deus, a carícia da misericórdia, que em Jesus adquire um rosto humano. Assim, maria torna-se Mãe da misericórdia. Discípula da Palavra e instrumento da sua encarnação, revela-se verdadeiramente como a “cheia de graça”. Nela tudo é graça! Oferecendo ao Verbo a própria carne, torna-se também, como ensina o Concílio Vaticano II seguindo Santo Agostinho, «mãe dos membros (de Cristo)... pois cooperou com caridade para o nascimento dos fiéis da Igreja, que são os membros da Cabeça»[2]. Do “Eis-me!” de Maria nasce não só Jesus, mas também a Igreja, e Maria torna-se simultaneamente Mãe de Deus - Theotókos - e Mãe da Igreja.

         Grande mistério! Tudo acontece no poder do Espírito Santo, que cobre Maria com a sua sombra, tornando fecundo o seu ventre virginal. Este momento da história tem uma docilidade e potência que atraem o coração e o levam àquela altura contemplativa em que germina a oração do Santo Rosário. Uma prece que, surgida e desenvolvida progressivamente no segundo milénio, tem as suas raízes na história da salvação, e precisamente na saudação do Anjo à Virgem encontra o seu prelúdio. «Ave, Maria»! A repetição desta oração no Rosário é como o eco da saudação de Gabriel, um eco que atravessa os séculos e orienta o olhar do crente para Jesus, visto com os olhos e o coração da Mãe. Jesus adorado, contemplado, assimilado em cada um dos seus mistérios a fim de que, com São Paulo, possamos dizer: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim!»[3].

         Precedida pela proclamação da Palavra de Deus, inserida entre o Pai-Nosso e o Glória, a Ave-Maria que se repete no Santo Rosário é um ato de amor. Não é porventura próprio do amor repetir sem se cansar: “Amo-te”? Um ato de amor que, nas contas do terço, como bem se vê no quadro mariano deste Santuário, nos remete para Jesus, conduzindo-nos à Eucaristia, «fonte e ápice de toda a vida cristã»[4]. Disto estava convencido São Bartolo Longo, quando escreveu: «A Eucaristia é o Rosário vivo, e todos os mistérios se encontram no Santo Sacramento de forma ativa e vital»[5]. E tinha razão! Na Eucaristia, os mistérios da vida de Cristo encontram-se todos, por assim dizer, concentrados na memória do seu sacrifício e na sua presença real. O Rosário tem uma fisionomia mariana, mas um coração cristológico e eucarístico[6]. Se a Liturgia das Horas cadencia os momentos de louvor da Igreja, o Rosário marca o ritmo da nossa vida, reconduzindo-a continuamente a Jesus e à Eucaristia.

         Gerações de crentes foram moldadas e amparadas por esta prece, simples e popular, e ao mesmo tempo capaz de alturas místicas e tesouro da teologia cristã mais essencial. Sim, o que existe de mais essencial do que os mistérios de Cristo, do seu santo Nome, pronunciado com a ternura da Virgem Maria? Só neste Nome, em nenhum outro, podemos ser salvos[7]. Repetindo-o em cada Ave-Maria, vivemos de certo modo a experiência da casa de Nazaré, como que ouvindo de novo a voz de Maria e de José nos longos anos em que Jesus viveu com eles. Vivemos também a experiência do Cenáculo, onde os Apóstolos aguardaram com Maria a efusão do Espírito Santo. Foi isso que a primeira Leitura nos indicou. Como deixar de pensar que, naquele tempo entre a Ascensão e o Pentecostes, Maria e os Apóstolos não poupavam esforços para recordar os vários momentos da vida de Jesus? Nenhum detalhe devia passar-lhes despercebido! Tudo devia ser recordado, assimilado, imitado. É assim que nasce o caminho contemplativo da Igreja, do qual, à semelhança do Ano litúrgico, o Rosário oferece a síntese na meditação diária dos santos Mistérios. Com razão, o Rosário era considerado um compêndio do Evangelho, que São João Paulo II quis integrar com os Mistérios da luz. Também esta dimensão estava muito viva em São Bartolo Longo, que ofereceu aos peregrinos meditações profundas para subtrair o Santo Rosário à tentação de uma recitação mecânica e para lhe assegurar o sopro bíblico, cristológico e contemplativo que o deve distinguir.

         Irmãs e irmãos, se o Rosário é “pregado” e, ousaria dizer, “celebrado” desta forma, é também, por consequência natural, nascente de caridade. Caridade para com Deus, caridade para com o próximo: duas faces da mesma moeda, como nos recordava a segunda Leitura, tirada da primeira Carta de São João, concluindo com a exortação: «Não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e na verdade»[8]. Por isso, São Bartolo Longo foi apóstolo do Rosário e, ao mesmo tempo, apóstolo da caridade. Nesta Cidade mariana, acolheu órfãos e filhos de presos, mostrando a força regeneradora do amor. Aqui, ainda hoje os mais pequeninos e os mais frágeis são acolhidos e cuidados nas Obras do Santuário. O Rosário orienta o olhar para as necessidades do mundo, como realçava a Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, propondo em particular duas intenções que permanecem de premente atualidade: a família, que sofre com o enfraquecimento do vínculo conjugal, e a paz, posta em risco pelas tensões internacionais e por uma economia que prefere o comércio de armas ao respeito pela vida humana.

         Quando São João Paulo II proclamou o Ano do Rosário - do qual se completará um quarto de século no próximo ano - quis colocá-lo de modo especial sob o olhar da Virgem de Pompeia. Desde então, a situação não melhorou. As guerras que ainda se travam em tantas regiões do mundo exigem um esforço renovado, não só económico e político, mas também espiritual e religioso. A paz nasce no coração. Em outubro de 1986, o mesmo Pontífice congregou em Assis os líderes das principais religiões, convidando todos a rezar pela paz. Em várias ocasiões, inclusive recentes, tanto o Papa Francisco como eu pedimos aos fiéis de todo o mundo que rezem por esta intenção. Não podemos resignar-nos às imagens de morte que as notícias nos propõem todos os dias. A partir deste Santuário, cuja fachada São Bartolo Longo concebeu como monumento à paz, elevemos hoje com fé a nossa Súplica. Jesus disse-nos que tudo pode ser alcançado pela oração recitada com fé[9]. E refletindo sobre a fé de Maria, São Bartolo Longo define-a “toda-poderosa pela graça”. Por sua intercessão, que do Deus da paz desça uma efusão sobreabundante de misericórdia, que sensibilize os corações, aplaque os rancores e os ódios fratricidas, iluminando quantos têm especiais responsabilidades de governo.

         Irmãos e irmãs, nenhum poder terreno salvará o mundo, mas apenas o poder divino do amor, o poder divino do amor que o Senhor Jesus nos revelou e nos concedeu. Acreditemos nele, esperemos nele, sigamo-lo!



[1] Lc 1, 28; cf. Sf 3, 14

[2] Const. dogm. Lumen gentium, 53; cf. Santo Agostinho, De S. Virginitate, 6

[3] Gl 2, 19

[5] Il Rosario e la Nuova Pompei, 1914, p. 86

[6] cf. Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, 1

[7] cf. At 4, 12

[8] 1 Jo 3, 18

[9] cf. Mt 21, 22