sábado, 23 de maio de 2026

Venerável Servo de Deus

MARCELINO LÓPEZ HERNANDO (Bautista Maria)

e 48 Companheiros, Religiosos e Mártires

12 de Novembro

Nasceu em 20 de Abril de 1900.

Fez sua profissão perpétua em 6 de Agosto de 1924, no Instituto dos Irmãos da Instrução Cristã de São Gabriel.

A comunidade de Montcada i Reixac (Barcelona) era composta por 28 Irmãos, incluindo 16 escolásticos, 24 noviços e postulantes, 40 juniores e o capelão.

A eles se juntaram 16 Irmãos de outras comunidades.

Em 7 de novembro de 1936, enquanto os religiosos estavam em oração, foram colocados em autocarro e levados para a prisão em Barcelona. Os de nacionalidade francesa foram libertados após a intervenção do seu Cônsul, enquanto os restantes (40) foram presos, transportados para o cemitério de Montcada e brutalmente assassinados por ódio à fé, unicamente por se manterem fiéis à sua vocação religiosa, a 12 de Novembro de 1936.

Tinha 36 anos de idade a quando do martírio.

A 27 de abril de 2026, o Santo Padre o Papa Leão XIV autorizou a promulgação do Decreto relativo ao Martírio.

Aguarda-se a divulgação da data e local da cerimónia de Beatificação.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Venerável Servo de Deus

Marcelino Pedro Lucio Gutiérrez-Cañas,

leigo e mártir

20 de Setembro

Na presente sexta-feira, 22 de Maio, o Santo Padre, o Papa Leão XIV recebeu em audiência Sua Eminência o Cardeal Marcello Semeraro, Prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos. Durante a audiência, o Sumo Pontífice autorizou o mesmo Dicastério a promulgar, ente outros decretos, o martírio de um grupo de 80 Servos de Deus da diocese de Santander (Espanha): 67 sacerdotes, 3 religiosos, 3 seminaristas e 7 leigos, vítimas da perseguição religiosa desencadeada na zona republicana entre 1936 e 1937, no norte da Espanha, Santander.

Entre eles, encontra-se o leigo Marcelino Pedro Lucio Gutiérrez-Cañas, lançado ao Mar Cantábrico com as mãos e os pés amarrados e uma pedra presa ao corpo, a 20 de Setembro de 1936.

Aguarda-se a divulgação da data e local da cerimónia de Beatificação.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II

EM PERSPECTIVA DO

41º DIA MUNDIAL DE ORAÇÕES

PELAS VOCAÇÕES

2 de Maio de 2004

Venerados Irmãos no Episcopado

Caríssimos Irmãos e Irmãs

         1. "Por isso, pedi ao senhor da messe que mande trabalhadores para a sua messe" [1].

         Destas palavras de Jesus, dirigidas aos Apóstolos, sobressai o primor que o Bom Pastor sempre manifesta pelas suas ovelhas. Ele realiza tudo isto, para que elas "tenham vida e a tenham em abundância"[2]. Depois da sua ressurreição, o Senhor confiará aos discípulos a responsabilidade de dar continuidade à sua própria missão, porque o Evangelho seja anunciado aos homens de todos os tempos. E são muitos os que, com generosidade, responderam e continuam a responder ao seu convite constante:  "Segui-me!"[3]. Trata-se de homens e de mulheres que aceitam colocar a existência totalmente ao serviço do seu Reino.

         Por ocasião do próximo 41º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, tradicionalmente marcada para o IV Domingo de Páscoa, todos os fiéis se unirão em oração ardente pelas vocações ao sacerdócio, à vida consagrada e ao serviço missionário. Com efeito, o nosso primeiro dever consiste em pedir ao "senhor da messe", por quantos já seguem Cristo mais de perto na vida presbiteral e religiosa, e por aqueles que Ele, na sua misericórdia, não cessa de chamar para estes importantes múnus eclesiais.

         2. Rezemos pelas vocações!

         Na Carta Apostólica «Novo millennio ineunte» observei que "se verifica hoje, não obstante os vastos processos de secularização, uma generalizada exigência de espiritualidade, que em grande parte se exprime precisamente numa renovada carência de oração"[4]. É nesta "carência de oração" que se insere o nosso pedido coral ao Senhor, a fim de que "mande trabalhadores para a sua messe".

         Constato com alegria que, em muitas Igrejas particulares, se formam cenáculos de oração pelas vocações. Nos Seminários maiores e nas Casas de formação dos Institutos religiosos e missionários já se realizam encontros com esta finalidade. Numerosas famílias são pequenos "cenáculos" de oração, que ajudam os jovens a responder com coragem e generosidade ao apelo do Mestre divino.

         Sim! A vocação ao serviço exclusivo de Cristo na sua Igreja constitui um dom inestimável da bondade divina, dom este que se há-de implorar com insistência e humildade confiante. O cristão deve abrir-se-lhe cada vez mais, permanecendo atento a fim de não desperdiçar "o tempo da graça" e "o tempo da visita"[5].

A oração ligada ao sacrifício e ao sofrimento reveste um valor particular. O sofrimento, vivido como cumprimento daquilo que falta à sua própria carne, "aos sofrimentos de Cristo, a favor do seu Corpo, que é a Igreja"[6], torna-se uma forma de intercessão mais eficaz do que nunca. Muitos doentes, em todas as partes do mundo, unem os seus sofrimentos à Cruz de Jesus, para implorar vocações santas! Eles acompanham-me espiritualmente também a mim, no ministério petrino que Deus me confiou, e oferecem à causa do Evangelho uma contribuição inestimável, embora muitas vezes de modo totalmente oculto.

         3. Oremos  pelas  pessoas  que  são chamadas  ao  sacerdócio  e  à  vida consagrada!

         Formulo votos cordiais, a fim de que se intensifique cada vez mais a oração pelas vocações. Que esta oração seja adoração do mistério de Deus e acção de graças pelas "maravilhas" que Ele realizou e não cessa de levar a cabo, apesar da debilidade dos homens. Oração contemplativa, impregnada de admiração e de acção de graças pela dádiva das vocações.

         No cerne de todas as iniciativas de oração encontra-se a Eucaristia. O sacramento do Altar tem um valor decisivo para o nascimento das vocações e para a sua perseverança, para que do sacrifício redentor de Cristo as pessoas chamadas possam haurir a força para se dedicar totalmente ao anúncio do Evangelho. À celebração eucarística, é bom que se una a adoração do Santíssimo Sacramento, prolongando de certa maneira o mistério da Santa Missa. Contemplar Cristo, presente real e substancialmente sob as espécies do pão e do vinho, pode suscitar no coração de quem é chamado ao sacerdócio ou a uma missão especial na Igreja, o mesmo entusiasmo que levou Pedro, no monte da Transfiguração, a exclamar:  "Senhor, é bom ficarmos aqui"[7]. Trata-se de um modo privilegiado de contemplar o rosto de Cristo, com Maria e na escola de Maria que, com a sua atitude interior, pode qualificar-se como "mulher "eucarística"[8].

         Possam todas as comunidades cristãs tornar-se "autênticas escolas de oração", onde se reze a fim de que não faltem trabalhadores no vasto campo do trabalho apostólico. Além disso, é necessário que a Igreja acompanhe com constante primor espiritual as pessoas chamadas por Deus e que "seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá"[9]. Refiro-me aos sacerdotes, às religiosas, aos religiosos, aos eremitas, às virgens consagradas, aos membros dos Institutos seculares, em síntese, a todos aqueles que receberam o dom da vocação e trazem "este tesouro... em vasos de barro"[10]. No Corpo místico de Cristo existe uma grande variedade de ministérios e carismas[11], e todos têm como finalidade a santificação do povo cristão. Na aspiração recíproca à santidade, que deve animar todos os membros da Igreja, é indispensável rezar a fim de que "as pessoas chamadas" permaneçam fiéis à sua vocação e alcancem a mais alta medida possível de perfeição evangélica.

         4. A oração das pessoas chamadas.

         Na Exortação Apostólica pós-sinodal «Pastores dabo vobis», ressaltei que "uma exigência insuprimível da caridade pastoral à própria Igreja particular e do seu amanhã ministerial é a solicitude que o sacerdote deve ter para encontrar, por assim dizer, alguém que o substitua no sacerdócio"[12]. Portanto, consciente de que Deus chama quem Ele quer[13], cada ministro de Cristo deve procurar rezar com perseverança pelas vocações. Ninguém melhor do que ele é capaz de compreender a urgência de uma substituição geracional que garanta pessoas generosas e santas para o anúncio do Evangelho e a administração dos Sacramentos.

         Precisamente nesta perspectiva, é mais necessária do que nunca "a adesão espiritual ao Senhor e às próprias vocação e missão"[14]. É da santidade das pessoas chamadas que depende a força do seu testemunho, capaz de impelir outros indivíduos a confiar a sua própria vida a Cristo. Este é o modo de se opor à diminuição do número de vocações à vida consagrada, que ameaça a existência de muitas obras apostólicas, sobretudo nos Países de missão.

         Além disso, a oração das pessoas chamadas, sacerdotes e consagrados, reveste um valor especial, porque se insere na oração sacerdotal de Cristo. Através delas, Ele pede ao Pai a fim de que santifique e conserve no seu amor aqueles que, não obstante vivam neste mundo, não pertencem a este mundo[15].

         O Espírito Santo faça de toda a Igreja um povo de orantes, que levantem a sua voz ao Pai celestial, em ordem a implorar vocações santas para o sacerdócio e a vida consagrada. Oremos a fim de que, aqueles que o Senhor escolheu e chamou, sejam testemunhas fiéis e alegres do Evangelho, ao qual consagraram a sua existência.

         5. Dirigimo-nos confiantes a Vós, ó Senhor!

Filho de Deus,

enviado pelo Pai para junto

dos homens de todos os tempos

e de todas as partes da terra!

Invocamos-vos por meio de Maria,

vossa e nossa Mãe: 

fazei com que na Igreja

não faltem vocações,

em particular as de especial

consagração ao vosso Reino.

Jesus, único Salvador do mundo!

Pedimos-vos pelos nossos irmãos

e pelas nossas irmãs,

que responderam "sim"

ao vosso apelo

ao sacerdócio,

à vida consagrada

e à missão.

Fazei com que

as suas existências

se renovem no dia-a-dia,

tornando-se Evangelho vivo.

Senhor misericordioso e santo,

continuai a enviar

novos trabalhadores

para a messe do vosso Reino!

Ajudai aqueles

que Vós chamais

para o vosso seguimento

neste nosso tempo: 

fazei com que,

contemplando o vosso rosto,

eles respondam com alegria à maravilhosa missão,

que lhes confiais para o bem do vosso Povo

e de todos os homens.

Vós, que sois Deus,

viveis e reinais

com o Pai e o Espírito Santo,

nos séculos dos séculos.

Amém!

Vaticano, 23 de Novembro de 2003.



[1] Lc 10, 2

[2] Jo 10, 10

[3] Jo 21, 22

[4] Carta Apostólica «Novo millennio ineunte», n. 33.

[5] cf. Lc 19, 44

[6] Cl 1, 24

[7] Mt 17, 4; cf. Mt 9, 5; Lc 9, 33

[8] Carta Ap 14, 4

[9] Encíclica «Ecclesia de Eucharistia», 53

[10] 2 Cor 4, 7

[11] cf. 1 Cor 12, 12

[12] Exortação Apostólica pós-sinodal «Pastores dabo vobis», n.74

[13] cf. Mc 3, 13

[15] cf. Jo 17, 14-16

sexta-feira, 15 de maio de 2026


 Leão XIV, «HOMILIA»,

Santuário de Pompeia, 8/Maio/2026

         Estimados irmãos e irmãs!

         “A minha alma glorifica o Senhor”. Estas palavras, com as quais respondemos à primeira Leitura, brotam do coração da Virgem Maria quando apresenta a Isabel o fruto do seu ventre, Jesus, o Salvador. Depois dela, cantarão a Cristo Zacarias, pai de João Batista, e o idoso Simeão. Estes três cânticos marcam todos os dias o louvor da Igreja na Liturgia das Horas. São o olhar do antigo Israel, que vê cumpridas as suas promessas; são o olhar da Igreja Esposa, voltada para o seu Esposo divino; são implicitamente o olhar de toda a humanidade, que encontra resposta ao seu anseio de salvação.

         Há cento e cinquenta anos, colocando a primeira pedra deste Santuário, no lugar onde a erupção do Vesúvio em 79 d.C. tinha sepultado sob as cinzas os vestígios de uma grande civilização, protegendo-os durante séculos, São Bartolo Longo com a sua esposa, a condessa Marianna Farnararo De Fusco, lançaram as bases não só de um templo, mas de toda uma cidade mariana. Assim ele expressava a consciência de um desígnio de Deus, que São João Paulo II, falando neste lugar de graça a 7 de Outubro de 2003, na conclusão do Ano do Rosário, relançou para o Terceiro Milénio, na perspetiva da nova evangelização: «Hoje - disse - assim como nos tempos da antiga Pompeia, é necessário anunciar Cristo a uma sociedade que se afasta dos valores cristãos e perde até a sua memória».

         Há exatamente um ano, quando me foi confiado o ministério de Sucessor de Pedro, era precisamente o dia da Súplica à Virgem, este belíssimo dia da Súplica à Virgem do Santo Rosário de Pompeia! Portanto, eu tinha que vir aqui, para colocar o meu serviço sob o amparo da Santíssima Virgem. A escolha do nome Leão insere-me no sulco de Leão XIII que, entre outros méritos, desenvolveu um amplo Magistério sobre o Santo Rosário. A tudo isto acrescenta-se a recente canonização de São Bartolo Longo, apóstolo do Rosário. Este contexto oferece-nos uma chave para refletir sobre a Palavra de Deus que acaba de ser ouvida.

         O Evangelho da Anunciação introduz-nos no momento em que o Verbo de Deus se faz carne no seio de Maria. Deste ventre irradia a Luz que dá pleno sentido à história e ao mundo. A saudação que o anjo Gabriel dirige à Virgem é um convite a alegrar-se: «Alegra-te, cheia de graça»[1]. Sim, a Ave-Maria é um convite à alegria: diz a Maria, e nela a todos nós, que sobre as ruínas da nossa humanidade provada pelo pecado e, por isso, sempre inclinada para prevaricações, opressões e guerras, chegou a carícia de Deus, a carícia da misericórdia, que em Jesus adquire um rosto humano. Assim, maria torna-se Mãe da misericórdia. Discípula da Palavra e instrumento da sua encarnação, revela-se verdadeiramente como a “cheia de graça”. Nela tudo é graça! Oferecendo ao Verbo a própria carne, torna-se também, como ensina o Concílio Vaticano II seguindo Santo Agostinho, «mãe dos membros (de Cristo)... pois cooperou com caridade para o nascimento dos fiéis da Igreja, que são os membros da Cabeça»[2]. Do “Eis-me!” de Maria nasce não só Jesus, mas também a Igreja, e Maria torna-se simultaneamente Mãe de Deus - Theotókos - e Mãe da Igreja.

         Grande mistério! Tudo acontece no poder do Espírito Santo, que cobre Maria com a sua sombra, tornando fecundo o seu ventre virginal. Este momento da história tem uma docilidade e potência que atraem o coração e o levam àquela altura contemplativa em que germina a oração do Santo Rosário. Uma prece que, surgida e desenvolvida progressivamente no segundo milénio, tem as suas raízes na história da salvação, e precisamente na saudação do Anjo à Virgem encontra o seu prelúdio. «Ave, Maria»! A repetição desta oração no Rosário é como o eco da saudação de Gabriel, um eco que atravessa os séculos e orienta o olhar do crente para Jesus, visto com os olhos e o coração da Mãe. Jesus adorado, contemplado, assimilado em cada um dos seus mistérios a fim de que, com São Paulo, possamos dizer: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim!»[3].

         Precedida pela proclamação da Palavra de Deus, inserida entre o Pai-Nosso e o Glória, a Ave-Maria que se repete no Santo Rosário é um ato de amor. Não é porventura próprio do amor repetir sem se cansar: “Amo-te”? Um ato de amor que, nas contas do terço, como bem se vê no quadro mariano deste Santuário, nos remete para Jesus, conduzindo-nos à Eucaristia, «fonte e ápice de toda a vida cristã»[4]. Disto estava convencido São Bartolo Longo, quando escreveu: «A Eucaristia é o Rosário vivo, e todos os mistérios se encontram no Santo Sacramento de forma ativa e vital»[5]. E tinha razão! Na Eucaristia, os mistérios da vida de Cristo encontram-se todos, por assim dizer, concentrados na memória do seu sacrifício e na sua presença real. O Rosário tem uma fisionomia mariana, mas um coração cristológico e eucarístico[6]. Se a Liturgia das Horas cadencia os momentos de louvor da Igreja, o Rosário marca o ritmo da nossa vida, reconduzindo-a continuamente a Jesus e à Eucaristia.

         Gerações de crentes foram moldadas e amparadas por esta prece, simples e popular, e ao mesmo tempo capaz de alturas místicas e tesouro da teologia cristã mais essencial. Sim, o que existe de mais essencial do que os mistérios de Cristo, do seu santo Nome, pronunciado com a ternura da Virgem Maria? Só neste Nome, em nenhum outro, podemos ser salvos[7]. Repetindo-o em cada Ave-Maria, vivemos de certo modo a experiência da casa de Nazaré, como que ouvindo de novo a voz de Maria e de José nos longos anos em que Jesus viveu com eles. Vivemos também a experiência do Cenáculo, onde os Apóstolos aguardaram com Maria a efusão do Espírito Santo. Foi isso que a primeira Leitura nos indicou. Como deixar de pensar que, naquele tempo entre a Ascensão e o Pentecostes, Maria e os Apóstolos não poupavam esforços para recordar os vários momentos da vida de Jesus? Nenhum detalhe devia passar-lhes despercebido! Tudo devia ser recordado, assimilado, imitado. É assim que nasce o caminho contemplativo da Igreja, do qual, à semelhança do Ano litúrgico, o Rosário oferece a síntese na meditação diária dos santos Mistérios. Com razão, o Rosário era considerado um compêndio do Evangelho, que São João Paulo II quis integrar com os Mistérios da luz. Também esta dimensão estava muito viva em São Bartolo Longo, que ofereceu aos peregrinos meditações profundas para subtrair o Santo Rosário à tentação de uma recitação mecânica e para lhe assegurar o sopro bíblico, cristológico e contemplativo que o deve distinguir.

         Irmãs e irmãos, se o Rosário é “pregado” e, ousaria dizer, “celebrado” desta forma, é também, por consequência natural, nascente de caridade. Caridade para com Deus, caridade para com o próximo: duas faces da mesma moeda, como nos recordava a segunda Leitura, tirada da primeira Carta de São João, concluindo com a exortação: «Não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e na verdade»[8]. Por isso, São Bartolo Longo foi apóstolo do Rosário e, ao mesmo tempo, apóstolo da caridade. Nesta Cidade mariana, acolheu órfãos e filhos de presos, mostrando a força regeneradora do amor. Aqui, ainda hoje os mais pequeninos e os mais frágeis são acolhidos e cuidados nas Obras do Santuário. O Rosário orienta o olhar para as necessidades do mundo, como realçava a Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, propondo em particular duas intenções que permanecem de premente atualidade: a família, que sofre com o enfraquecimento do vínculo conjugal, e a paz, posta em risco pelas tensões internacionais e por uma economia que prefere o comércio de armas ao respeito pela vida humana.

         Quando São João Paulo II proclamou o Ano do Rosário - do qual se completará um quarto de século no próximo ano - quis colocá-lo de modo especial sob o olhar da Virgem de Pompeia. Desde então, a situação não melhorou. As guerras que ainda se travam em tantas regiões do mundo exigem um esforço renovado, não só económico e político, mas também espiritual e religioso. A paz nasce no coração. Em outubro de 1986, o mesmo Pontífice congregou em Assis os líderes das principais religiões, convidando todos a rezar pela paz. Em várias ocasiões, inclusive recentes, tanto o Papa Francisco como eu pedimos aos fiéis de todo o mundo que rezem por esta intenção. Não podemos resignar-nos às imagens de morte que as notícias nos propõem todos os dias. A partir deste Santuário, cuja fachada São Bartolo Longo concebeu como monumento à paz, elevemos hoje com fé a nossa Súplica. Jesus disse-nos que tudo pode ser alcançado pela oração recitada com fé[9]. E refletindo sobre a fé de Maria, São Bartolo Longo define-a “toda-poderosa pela graça”. Por sua intercessão, que do Deus da paz desça uma efusão sobreabundante de misericórdia, que sensibilize os corações, aplaque os rancores e os ódios fratricidas, iluminando quantos têm especiais responsabilidades de governo.

         Irmãos e irmãs, nenhum poder terreno salvará o mundo, mas apenas o poder divino do amor, o poder divino do amor que o Senhor Jesus nos revelou e nos concedeu. Acreditemos nele, esperemos nele, sigamo-lo!



[1] Lc 1, 28; cf. Sf 3, 14

[2] Const. dogm. Lumen gentium, 53; cf. Santo Agostinho, De S. Virginitate, 6

[3] Gl 2, 19

[5] Il Rosario e la Nuova Pompei, 1914, p. 86

[6] cf. Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, 1

[7] cf. At 4, 12

[8] 1 Jo 3, 18

[9] cf. Mt 21, 22

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Palavra de Vida

Maio de 2026

Claudio Cianfaglioni e equipa da Palavra de Vida 

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo»  (Jo 20,21-22)

Depois de ter aparecido a Maria de Magdala na manhã de Páscoa, na tarde do mesmo dia o Ressuscitado tornou-se presente, pela primeira vez, no meio dos seus discípulos. A reação imediata deles foi a alegria, reforçada pela paz, a verdadeira paz que só Ele pode dar (Cf. Jo 14,27): «A paz esteja convosco» (v. 21). Alegria e paz são os frutos do Espírito («Por seu lado, é este o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência…» (Gl 5,22). Na verdade Jesus diz-lhes em seguida: «Recebei o Espírito Santo» (v. 22).

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo»  (Jo 20,21-22)

O Espírito Santo não só habilita os discípulos para a mesma missão de Jesus, dada pelo Pai, mas “recria-os” como nova humanidade. O gesto do Ressuscitado, que soprou sobre eles, é o mesmo que o Criador fez nas narinas do homem formado do pó da terra (Cf. Gn 2, 7). Assim como a Criação é obra contínua do amor do Pai que sustém o universo inteiro, também a nova Criação realizada pelo Ressuscitado, no Espírito Santo, sustém continuamente a humanidade em caminho para o Reino.

A Palavra de Vida deste mês recorda-nos que, na nossa existência, temos uma grande possibilidade: tornarmo-nos “outros Jesus”. Isso é verdade para cada um de nós individualmente, mas ainda mais comunitariamente. Jesus fala aos seus discípulos no plural. De facto, só juntos, cada membro com a sua especificidade, podemos “reproduzir” o Corpo Místico de Jesus.

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo»  (Jo 20,21-22)

Enquanto filhos no Filho, temos, por isso, a mesma vocação de Jesus: saídos do seio do Pai, somos chamados a voltar para Ele, repetindo no mundo os seus gestos e as suas palavras, guiados pela graça do Espírito Santo. Se nos abrimos a este dom, também nós podemos afirmar com Paulo: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20).

Esta Palavra, portanto, convida-nos a aprofundar o nosso relacionamento com o Espírito Santo, quer seja na oração quer na vida de cada dia, “escutando a Sua voz”, e recordando que: «Sem o Espírito, Deus está longe, Cristo permanece no passado, o Evangelho é letra morta, a Igreja é uma simples organização, a missão reduz-se a propaganda. Mas, com o Espírito Santo, o cosmos é enobrecido pela geração do Reino, Cristo Ressuscitado faz-se presente, o Evangelho torna-se força de vida, a Igreja realiza a comunhão trinitária, a missão é um Pentecostes» (Inácio, Metropolita de Laodiceia, Assembleia-Geral do Conselho Ecuménico das Igrejas, 5 de julho de 1968, citado pelo Papa Francisco na Homilia da solenidade de Pentecostes, 31 de maio de 2020).

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo»  (Jo 20,21-22)

Andrea era um adolescente em plena crise existencial: as dúvidas sobre o sentido da vida, o medo do futuro, as fragilidades que experimentava pareciam-lhe montanhas intransponíveis e, por vezes, estava sem coragem e infeliz. Alguém lhe sugeriu que falasse com Chiara Lubich. Pouco antes de a encontrar, Andrea ouviu Chiara pronunciar em voz baixa: «Espírito Santo» – e compreendeu que Chiara estava a rezar.

Durante o colóquio sentiu-se profundamente compreendido, escutado e acolhido tal como era. E reencontrou a paz: não porque os seus problemas tivessem desaparecido de repente, mas porque agora tinha alguém com quem os partilhar.

«De Chiara não recebi apenas apoio concreto – confidenciaria anos mais tarde – mas aprendi também um estilo de vida: estar ao lado de quem sofre, com delicadeza e compreensão, sem julgar, tal como faria Jesus».

Isto só o Espírito Santo pode realizar, se O acolhermos e O deixarmos atuar em nós.

sábado, 14 de fevereiro de 2026


«MENSAGEM» do Papa Leão XIV 
para a Quaresma de 2026

Queridos irmãos e irmãs!

A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano.

Todo o caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por isso, o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho que sobe a Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua paixão, morte e ressurreição.

Escutar

Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro.

O próprio Deus, revelando-se a Moisés na sarça ardente, mostra que a escuta é uma característica distintiva do seu ser: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egipto, e ouvi o seu clamor» (Ex 3, 7). Escutar o clamor dos oprimidos é o início de uma história de libertação, na qual o Senhor envolve também Moisés, enviando-o a abrir um caminho de salvação para os seus filhos reduzidos à escravidão.

É um Deus que nos envolve e, hoje, também vem até nós com os pensamentos que fazem vibrar o seu coração. Por isso, escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade: entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nesta disposição interior de recetividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que «a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja» (Exort. ap. Dilexi te - 4 de outubro de 2025, 9).

Jejuar

Se a Quaresma é um tempo de escuta, jejum constitui uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus. Na verdade, a abstinência de alimentos é um exercício ascético muito antigo e insubstituível no caminho da conversão. Precisamente porque implica o corpo, torna mais evidente aquilo de que temos “fome” e o que consideramos essencial para o nosso sustento. Portanto, é útil para discernir e ordenar os “apetites”, para manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo.

Com grande sensibilidade espiritual, Santo Agostinho deixa transparecer a tensão entre o tempo presente e a realização futura que atravessa esta salvaguarda do coração, quando observa que: «Ao longo da vida terrena, cabe aos homens ter fome e sede de justiça, mas ser saciados pertence à outra vida. Os anjos saciam-se deste pão, deste alimento. Os homens, pelo contrário, sentem fome dele, estão inclinados ao seu desejo. Esta inclinação ao desejo dilata a alma, aumentando a sua capacidade» (Santo Agostinho, A utilidade do jejum, 1, 1). Compreendido neste sentido, o jejum permite-nos não só disciplinar o desejo, purificá-lo e torná-lo mais livre, mas também ampliá-lo, de tal modo que se volte para Deus e se oriente para agir no bem.

No entanto, para que o jejum conserve a sua autenticidade evangélica e evite a tentação de envaidecer o coração, deve ser sempre vivido com fé e humildade. Ele exige um permanente enraizar-se na comunhão com o Senhor, porque «não jejua verdadeiramente quem não sabe alimentar-se da Palavra de Deus» (Bento XVI, Catequese - 9 de março de 2011). Como sinal visível do nosso compromisso interior de, com o apoio da graça, nos afastarmos do pecado e do mal, o jejum deve incluir também outras formas de privação destinadas a fazer-nos assumir um estilo de vida mais sóbrio, pois «só a austeridade torna forte e autêntica a vida cristã» (São Paulo VI, Catequese - 8 de fevereiro de 1978).

Por isso, gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.

Juntos

Por fim, a Quaresma realça a dimensão comunitária da escuta da Palavra e da prática do jejum. A Escritura sublinha também este aspeto de várias maneiras. Por exemplo, ao narrar no livro de Neemias que o povo se reuniu para escutar a leitura pública do livro da Lei e, praticando o jejum, se dispôs à confissão de fé e à adoração, a fim de renovar a aliança com Deus (cf. Ne 9, 1-3).

Do mesmo modo, as nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho partilhado, no qual a escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum e o jejum suporte um verdadeiro arrependimento. Neste contexto, a conversão diz respeito não só à consciência do indivíduo, mas também ao estilo das relações, à qualidade do diálogo, à capacidade de se deixar interpelar pela realidade e de reconhecer o que realmente orienta o desejo, tanto nas nossas comunidades eclesiais como na humanidade sedenta de justiça e reconciliação.

Caríssimos, peçamos a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos. Peçamos a força dum jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor.

De coração, abençoo todos vós e o vosso caminho quaresmal.