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terça-feira, 1 de setembro de 2026


 Palavra de Vida

Setembro de 2026


Claudio Cianfaglioni 

e equipa da Palavra de Vida


«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Será que se pode obrigar alguém a amar? Se entendermos o amor como um sentimento, é realmente impossível! Mas se, pelo contrário, o entendermos como uma dádiva de Deus, as coisas mudam. 

São Paulo, na Carta aos Romanos, de onde é retirada esta Palavra de Vida, descreve precisamente a relação entre a Lei e o amor, afirmando que o amor é o pleno cumprimento da Lei. Pouco antes, ele já nos tinha revelado a origem desse amor: «Mas Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.» (Rm 5,8). Também a Primeira Carta de São João afirma: «É nisto que consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e nos enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.» (1Jo 4,10)

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Ninguém pode dar o que não tem. Santo Agostinho tinha-o compreendido bem quando dizia, dirigindo-se diretamente a Deus: «Concede-me o que me ordenas e ordena-me o que quiseres» (Santo Agostinho, Confissões, X, 29,40). Recebemos a dádiva inestimável do amor de Deus e somos chamados a não o guardarmos para nós, mas a fazê-lo circular. De destinatários do amor de Deus, podemos tornar-nos protagonistas desse amor. De amados, somos chamados a tornarmo-nos amantes, participando assim na própria vida do Pai, do Filho e do Espírito Santo: o Amante, o Amado e o Amor. 

São Paulo assegura-nos que não temos qualquer outra dívida para com ninguém, senão a do amor recíproco, porque quem ama o próximo cumpriu a Lei (Cf. Rm 13, 8).

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

«O verdadeiro amor ao próximo – afirma Chiara Lubich – não faz mal algum. Leva-nos a viver todos os mandamentos de Deus, sem exceção, pois o seu primeiro objetivo é ajudar-nos a evitar todas as formas de mal em que poderíamos cair, tanto contra nós mesmos como contra os nossos irmãos e irmãs» (C. Lubich, Palavra de vida de setembro de 1993, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, p. 531).

Assim compreendidos, os mandamentos da Lei deixam de ser apenas uma obrigação para se tornarem uma dádiva do amor de Deus: não limitam o nosso amor, mas libertam-no plenamente.

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Para chegar a este «pleno cumprimento», o primeiro passo para amar o próximo é não lhe fazer mal. Depois, é preciso ir mais além, tornando-nos criativos no amor: «não é suficiente não praticar o mal contra o próximo – recordou-nos o Papa Francisco –, é necessário escolher fazer o bem aproveitando as ocasiões para dar bom testemunho de que somos discípulos de Jesus» (Papa Francisco, Audiência Geral, 3 de janeiro de 2018).

Como viver, então, esta Palavra de Vida? Coloquemos o amor no centro da nossa vida. Amemos os outros concretamente, como Jesus os amaria: é Ele a plenitude do amor, totalmente entregue a Deus e à humanidade. É d’Ele que podemos aprender a medida mais elevada do amor.

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Doris, uma jovem da Escócia, conta-nos: «Durante as nossas visitas regulares a um centro de apoio a pessoas sem-abrigo, entro num mundo muito diferente do meu. Sei que não conta tanto o que eu sinto, mas importa amar. Um dia, um homem com uma profunda tristeza estampada no rosto confidenciou-me que se sentia prestes a pôr fim a tudo, que até desejava morrer. Limitei-me a escutá-lo; depois partilhámos uma sandes e um café. Compreendi que escutar e estar presente já era uma forma de demonstrar amor. Quando chegou o momento de partir, ele abraçou-me com força e sorriu-me, dizendo que aquilo que estávamos a fazer era muito importante, não apenas para ele, mas para todos os que ali se encontravam. Senti a força extraordinária do amor. Talvez não o tenha “salvo”, mas a sua gratidão encheu-me de alegria, e isso, por si só, já tem um enorme poder.»

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Novena da 

Imaculada Conceição

2025

com o Papa Leão XIV

6º Dia

04.Dezembro – 5ª feira:

Cântico:

1. Bendizemos o Teu nome, Mãe do Céu, Virgem Maria,

    Bendizemos à porfia o Teu Filho Salvador.

Aqui vimos, Mãe querida, Consagrar-Te o nosso amor. (2x)

2. Esmagaste ó Virgem Santa, toda Bela e Imaculada,

    A cabeça envenenada do dragão enganador!

3. Todo o mundo, ó Mãe bendita, cheio está de Tuas glórias,

    De perpétuas memórias e Teu nome e Teu louvor.

4. Advogada poderosa, o Universo em Ti confia

    Porque és Tu refúgio e guia, para o justo e pecador.

5. És conforto dos aflitos, És das graças dispenseira,

    És da paz a mensageira, nossa esp’rança e nosso amor.

 

Quando a Novena é presidida por um leigo:

V/: Deus, vinde em nosso auxílio:

R/: Senhor, socorrei-nos e salvai-nos.

V/: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,

R/: como era no princípio, agora e sempre. Ámen. Aleluia.

 

Mistérios da Luz (Luminosos)

No 1º Mistério Luminoso contemplamos:

«O Baptismo de Jesus»

Texto Bíblico

Do evangelho de São João:

“29No dia seguinte, viu Jesus, que vinha ter com ele, e disse: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. 30Este é aquele acerca de quem eu disse: "Atrás de mim vem um homem, que adiante de mim surgiu, porque antes de mim existia". 31Também eu não o conhecia, mas foi para que se manifestasse a Israel que eu vim batizar na água». 32E João deu testemunho, dizendo: «Vi o Espírito descer do céu como uma pomba, e permaneceu sobre Ele. 33Também eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar na água disse-me: "Aquele sobre quem vires o Espírito descer e sobre Ele permanecer, é Ele o que batiza no Espírito Santo". 34Ora, eu vi e dou testemunho: este é o Filho de Deus».” [1]

Prece:

Por todos os Baptizados, para que cresçam na configuração à Vontade de Deus.

Depois de cada dezena:

V/. Nossa Senhora da Conceição. R/ Rogai por nós!

V/. Rainha da Paz. R/ Dai-nos a Paz!

No 2º Mistério Luminoso contemplamos:

«A Revelação de Jesus nas Bodas de Caná»

Texto Bíblico

Do evangelho de São João:

“… Sua mãe disse aos servidores «Fazei o que Ele vos disser» (…) Disse-lhes Jesus «Enchei de água essas talhas» (…) Disse-lhes depois: «Tirai agora e levai ao chefe da mesa». Assim fizeram. O chefe da mesa, depois de provar a água transformada em vinho, (…) chamou o noivo, e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom, e, quando os convidados tiverem bebido bem, serve então o pior. Tu, porém, guardaste o vinho bom até agora»”.[2]

Prece:

Por todas as famílias do mundo, para que manifestem, pelo seu testemunho, o vosso amor pela Santa Igreja.

Depois de cada dezena:

V/. Nossa Senhora da Conceição. R/ Rogai por nós!

V/. Rainha da Paz. R/ Dai-nos a Paz!

No 3º Mistério Luminoso contemplamos:

«O Anúncio do Reino de Deus

e O Convite à Conversão»

Texto Bíblico

Do evangelho de São Mateus:

“12Quando Jesus ouviu que João fora preso, retirou-se para a Galileia. 13Deixando Nazaré, foi morar para Cafarnaum, à beira-mar, nos territórios de Zabulão e Neftali, 14para que se cumprisse o que foi dito por meio do profeta Isaías, que diz: 15Terra de Zabulão e terra de Neftali, caminho do mar, além Jordão, Galileia dos pagãos: 16o povo que habitava nas trevas viu uma grande luz, e aos que habitavam na terra e na sombra da morte para eles uma luz nasceu. 17Desde então Jesus começou a proclamar e a dizer: «Convertei-vos, pois está próximo o reino dos céus».” [3]

Prece:

Por todos os homens e mulheres do mundo inteiro, para que acolham generosamente o convite à conversão.

Depois de cada dezena:

V/. Nossa Senhora da Conceição. R/ Rogai por nós!

V/. Rainha da Paz. R/ Dai-nos a Paz!

No 4º Mistério Luminoso contemplamos:

«A Transfiguração de Jesus»

Texto Bíblico

Do Evangelho de São Mateus:

“1Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte. 2Transfigurou-se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. 3Nisto, apareceram Moisés e Elias a conversar com Ele. 4Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Senhor, é bom estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» 5Ainda ele estava a falar, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o.» 6Ao ouvirem isto, os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados. 7Aproximando-se deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo.»”[4]

Prece:

Por todos os homens e mulheres do mundo inteiro, para que se tornem cada vez mais semelhantes à Vossa Vontade.

Depois de cada dezena:

V/. Nossa Senhora da Conceição. R/ Rogai por nós!

V/. Rainha da Paz. R/ Dai-nos a Paz!

No 5º Mistério Luminoso contemplamos:

«A Instituição da Eucaristia»

Texto Bíblico

Do evangelho de São Marcos:

“22Enquanto eles comiam, tomou um pão e, pronunciando a bênção, partiu-o, deu-lho e disse: «Tomai, este é o meu corpo». 23Tomando, então, um cálice e dando graças, deu-lho e todos beberam dele. 24E disse-lhes: «Este é o meu sangue da aliança, derramado em favor de muitos. 25Também vos digo: não mais beberei do fruto da videira, até àquele dia em que o hei de beber, novo, no reino de Deus».”[5]

Prece

Pelo nosso amor à Eucaristia e pelas vocações sacerdotais.

Depois de cada dezena:

V/. Nossa Senhora da Conceição. R/ Rogai por nós!

V/. Rainha da Paz. R/ Dai-nos a Paz!

      Meditação

            com a Nota doutrinal «Mater Populi fidelis»

            A Mãe do Povo fiel é contemplada com afeto e admiração pelos cristãos porque, se a graça nos quer semelhantes a Cristo, Maria é a expressão mais perfeita da sua ação que transforma a nossa humanidade. Ela é a manifestação feminina de tudo quanto pode operar a graça de Cristo no ser humano. Diante de tal formosura, movidos pelo amor, muitos fiéis procuraram sempre referir-se à Mãe com as palavras mais belas e exaltaram o lugar peculiar que ela tem junto a Cristo.[6]           

 

V/: Rezemos as 3 Avé-Marias finais:

em honra da Pureza de Nossa Senhora,

pela paz no mundo,

pelo Santo Padre, sua saúde e intenções,

pelo nosso Arcebispo, sua saúde e intenções,

pelos sacerdotes, especialmente pelo nosso pároco,

pelos nossos Seminários e noviciados, pelas vocações,

pelas crianças e jovens da catequese,

pelas famílias, pelos doentes, idosos, imigrantes, pobres e desempregados,

pela conversão dos pecadores,

pelas benditas almas do Purgatório.

e pelos que se recomendam às nossas orações.

 

Depois da Salvé Rainha,

quando a Novena é presidida por um leigo, enquanto todos traçam sobre si o sinal da Cruz, a despedida ocorre na forma seguinte:

V/: O Senhor nos abençoe, nos livre de todo o mal e nos conduza à vida eterna.

R/: Ámen.



[1] Jo 1, 29-34

[2] cf. Jo 2, 5-12

[3] Mt 4, 14.15

[4] Mt 17, 1-7

[5] Mc 14, 22-25

[6] Dicastério da Doutrina da Fé, Nota doutrinal «Mater Populi fidelis», 1

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

 

Palavra de Vida

Dezembro de 2025

Letizia Magri e  equipa da Palavra de Vida  

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         Exilado na Babilónia, o povo de Israel tinha perdido tudo: a sua terra, o seu rei, o Templo e, por isso, a possibilidade de prestar culto ao seu Deus, Àquele que no passado o tinha feito sair do Egipto. 

Mas eis que a voz de um profeta faz um anúncio surpreendente: chegou a hora de regressar a casa. Uma vez mais, Deus agirá com poder e reconduzirá os israelitas para além do deserto, até Jerusalém. Desse acontecimento prodigioso serão testemunhas todos os povos da Terra: 

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         Também hoje os noticiários estão repletos de notícias alarmantes: pessoas que perdem o trabalho, a saúde, a segurança e a dignidade. Sobretudo jovens que têm o futuro em risco por causa da guerra ou da pobreza provocada por alterações climáticas nos seus países. Há povos sem terra, sem paz, sem liberdade. 

         Um cenário trágico, de dimensões planetárias, que nos faz ficar sem fôlego e obscurece o horizonte. Quem nos salvará da destruição de tudo aquilo que considerávamos ter alcançado? Parece não haver razões para a esperança. Contudo, o anúncio do profeta é também para nós: 

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         A sua palavra revela a ação de Deus na história pessoal e coletiva e convida a abrir os olhos para os sinais desse projeto de salvação. De facto, este já está presente: na paixão educativa de uma professora, na honestidade de um empresário, na retidão de uma administradora, na fidelidade de dois esposos, no abraço de uma criança, na ternura de um enfermeiro, na paciência de uma avó, na coragem de homens e mulheres que se opõem pacificamente à criminalidade, no acolhimento de uma comunidade. 

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         Aproxima-se o Natal. No sinal da inocência desarmada do Menino, podemos reconhecer, mais uma vez, a presença paciente e misericordiosa de Deus na história humana e dar testemunho dela com as nossas escolhas coerentes e contracorrente: «[…] A um mundo como o nosso – em que se enaltece a luta, a lei do mais forte, do mais esperto, a astúcia sem escrúpulos, onde tudo parece paralisado pelo materialismo e pelo egoísmo – a resposta que podemos dar é o amor ao próximo. É este o remédio que pode curar. […] É como uma onda de calor divino que irradia e se propaga, penetrando nos relacionamentos de pessoa a pessoa, entre grupo e grupo e transformando pouco a pouco a sociedade» [C. Lubich, Palavra de Vida de maio de 1985, em Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma, 2017, pp. 323-324]. 

         Como para o povo de Israel, também para nós, este é o momento de nos pormos a caminho, a ocasião propícia para dar um passo em frente, com decisão, ao encontro de todos os que – jovens ou idosos, pobres, migrantes, desempregados ou sem-abrigo, doentes ou na prisão – esperam um gesto de atenção e de proximidade, testemunho da presença humilde mas eficaz do amor de Deus no meio de nós. 

         Atualmente as fronteiras que é preciso ultrapassar para levar este anúncio de esperança são naturalmente as geográficas, que muitas vezes se tornam muros ou dolorosas linhas de guerra, mas há também as divisões culturais e existenciais. Além disso, nas comunidades digitais, frequentemente utilizadas pelos jovens, pode também ser dado um contributo eficaz para combater a agressividade, a solidão e a marginalização. 

         Como escreveu o poeta congolês Henri Boukoulou: «[…] Ó, divina esperança! Eis que no soluço desesperado do vento, se formam os primeiros versos do mais belo poema de amor. E amanhã, é a esperança!» [Cf. AA.VV. Poeti Africani Anti-Apartheid, I vol., Edizioni dell’Arco, Milano, 2003]. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

 

Palavra de Vida

Setembro de 2025

Patrizia Mazzola e equipa da Palavra de Vida

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

No Antigo Oriente, os pastores costumavam contar as ovelhas, no regresso da pastagem, dispostos a ir à procura de alguma que faltasse. Estavam prontos a enfrentar até o deserto e a noite, tudo para encontrar as ovelhas que se tivessem perdido.

Esta parábola é uma história de perda e encontro, que coloca em primeiro plano o amor do pastor. Ele apercebe-se que falta uma ovelha, procura-a, encontra-a e carrega-a aos ombros, porque a encontrou debilitada e assustada, talvez ferida e incapaz de seguir o pastor só por si mesma. É ele que a traz de volta para um lugar seguro e, finalmente, cheio de alegria, convida os seus vizinhos para festejarem juntos.

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

Podemos resumir os temas presentes nesta narração em três ações: perder-se, encontrar, festejar.

Perder-se. A boa notícia é que o Senhor vai à procura de quem se perde. Perdemo-nos muitas vezes nos vários desertos que atravessamos, nos quais somos forçados a viver ou nos quais nos refugiamos: os desertos do abandono, da marginalização, da pobreza, das incompreensões, da falta de unidade. O Pastor procura-nos também aí e, ainda que o possamos perder de vista, Ele encontra-nos sempre.

Encontrar. Procuremos imaginar a cena da fatigante procura feita pelo pastor no deserto. É uma imagem tocante pela sua força expressiva. Podemos compreender a alegria experimentada, tanto pelo pastor como pela ovelha. E este encontro renova na ovelha perdida a sensação de segurança, por já não estar em perigo. O “reencontrar”, portanto, é mesmo um ato de misericórdia divina.

Festejar. Ele chama os seus amigos para festejar com ele, porque quer partilhar a sua alegria, tal como acontece nas duas parábolas que se seguem a esta, a da moeda perdida e a do pai misericordioso [Cf. Lc 15,8 e 15,11]. Jesus quer fazer-nos compreender a importância de participar na alegria com todos e imunizar-nos contra a tentação de julgar os outros. Todos somos “encontrados”.

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

Esta Palavra de Vida é um convite à gratidão pela misericórdia que Deus tem pessoalmente por cada um de nós. O facto de nos regozijarmos, de nos alegrarmos juntos, apresenta-nos uma imagem da unidade, onde não existe contraposição entre “justos” e “pecadores”, mas onde cada um participa na alegria do outro.

Escreveu Chiara Lubich: «É um convite para compreender o coração de Deus, para acreditar no seu amor. Levados, como somos, a calcular e a medir, às vezes pensamos que também Deus tem por nós um amor que, a um certo ponto, se poderia cansar […] A lógica de Deus não é como a nossa. Deus espera-nos sempre: aliás, damos-Lhe uma imensa alegria todas as vezes que voltamos para Ele – ainda que se trate de um número infinito de vezes» [C. Lubich, Palavra de Vida de setembro de 1986, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, p. 369].

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

Por vezes, podemos ser nós esses pastores, esses guardiões uns dos outros que, com amor, vamos à procura dos que se afastaram de nós, da nossa amizade, da nossa comunidade. Temos que procurar os que se encontram marginalizados, os perdidos, os mais frágeis, que as provações da vida afastaram para as margens da nossa sociedade.

Conta-nos uma professora: «Alguns alunos frequentavam as aulas só de vez em quando. Durante as horas em que eu não tinha aulas, ia até ao mercado próximo da escola: esperava poder encontrá-los lá, porque sabia que trabalhavam ali para ganhar alguma coisa. Um dia, finalmente, vi-os. Eles ficaram admirados pelo facto de eu ter ido pessoalmente à procura deles e ficaram sensibilizados por lhes manifestar o quanto eram importantes para a comunidade escolar. Assim, começaram outra vez a vir regularmente à escola e foi, realmente, uma festa para todos».

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

 

Palavra de Vida

Janeiro 2025

Silvano Malini e equipa da Palavra de Vida

«Acreditas nisto?» (Jo 11, 26)

Jesus estava a chegar a Betânia, onde Lázaro tinha morrido há quatro dias. Quando soube da Sua vinda, a irmã de Lázaro, Marta, correu esperançosa ao Seu encontro. Jesus gostava muito dela, e da sua irmã Maria e de Lázaro, como assinala o Evangelho [Jo 11,5]. Apesar do sofrimento, Marta manifestou ao Senhor a sua confiança n’Ele, convicta de que, se Ele estivesse ali antes da morte do irmão, este ainda estaria vivo. Mas também que agora, qualquer pedido que Jesus fizesse a Deus, seria atendido. «O teu irmão ressuscitará» (Jo 11,23), afirmou então Jesus.

«Acreditas nisto?» (Jo 11, 26)

Jesus esclareceu que se referia ao regresso de Lázaro à vida física, aqui e agora, e não apenas à vida que espera o crente depois da morte. Depois pediu a Marta a adesão da fé, não só para realizar um dos seus milagres – a que o evangelista João chama “sinais” – mas para lhe dar, como a todos os crentes, uma vida nova e a ressurreição. «Eu sou a ressurreição e a vida» (Jo 11,25), afirmou Jesus. A fé que Jesus pede é um relacionamento pessoal com Ele, uma adesão ativa e dinâmica. Acreditar não é como aceitar um contrato – que se assina uma vez e fica para sempre –, mas é um facto que transforma e impregna a vida quotidiana.

«Acreditas nisto?» (Jo 11, 26)

Jesus convida-nos a viver uma vida nova, aqui e agora. Convida-nos a experimentá-la cada dia, sabendo que, como descobrimos no Natal, Ele próprio no-la trouxe, tomando a iniciativa de nos procurar e de vir habitar no meio de nós.

Como responder à Sua pergunta? Olhemos para Marta, a irmã de Lázaro.

Em diálogo com Jesus, desponta nela uma profissão de fé plena n’Ele. O original grego exprime-o com uma força ainda maior. Aquele “eu creio” por ela pronunciado significa “fiquei a acreditar”, “creio firmemente” que «Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo» [Jo 11, 27], com todas as consequências. É uma convicção amadurecida no tempo, posta à prova nas diversas circunstâncias que enfrentou na vida.

O Senhor faz-me a mesma pergunta a mim. Também a mim pede uma grande confiança n’Ele, a adesão ao Seu estilo de vida alicerçado no amor generoso e concreto para com todos. A perseverança amadurecerá a minha fé, que se reforçará ao verificar, dia após dia, a veracidade das palavras de Jesus colocadas em prática, e que não deixará de se expressar no meu agir quotidiano para com todos. Entretanto, podemos fazer nosso o pedido dos apóstolos a Jesus: «Aumenta a nossa fé» (Lc 17, 6).

«Acreditas nisto?» (Jo 11, 26)

«Uma das minhas filhas tinha perdido o trabalho, assim como todos os seus colegas, porque o governo tinha fechado a agência pública onde trabalhavam», conta a Patrícia, da América do Sul. «Como forma de protesto, organizaram um acampamento diante da sede. Eu procurava apoiá-los participando em algumas das suas atividades, levando-lhes comida ou simplesmente ficando a falar com eles.

Na Quinta-Feira Santa, um grupo de sacerdotes que os acompanhava decidiu fazer ali uma celebração onde se ofereciam também espaços de escuta, leu-se o Evangelho e realizou-se o gesto do lava-pés, recordando o que Jesus fez. A maior parte dos presentes não eram pessoas religiosas. Contudo, foi um momento de profunda união, de fraternidade e de esperança. Sentiram-se abraçados e, emocionados, agradeceram àqueles sacerdotes que os acompanhavam na incerteza e no sofrimento».

Esta palavra de Jesus foi escolhida como lema para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2025. Rezemos então e façamos de tudo para que a nossa fé comum seja o motor da procura da fraternidade com todos: é a proposta e o desejo de Deus para a humanidade, mas requer a nossa adesão. A oração e a ação serão eficazes se nascerem da nossa confiança em Deus e do nosso agir em conformidade.

domingo, 1 de dezembro de 2024

 

Palavra de Vida

Dezembro 2024

Augusto Parody Reyes e equipa da Palavra de Vida 

«Nada é impossível a Deus» (Lc 1,37)

Estamos na narração da Anunciação. O anjo Gabriel dirige-se a Maria de Nazaré para lhe dar a conhecer os planos de Deus sobre ela: conceberá e dará à luz um filho, Jesus, que «será grande e será chamado Filho do Altíssimo» [Lc 1,32]. Este episódio está em continuidade com outros acontecimentos do Antigo Testamento em que foram concedidos nascimentos prodigiosos a mulheres estéreis ou de idade avançada, cujos filhos seriam chamados a realizar missões importantes na história da salvação. Neste momento, Maria, mesmo querendo aderir em plena liberdade à missão de se tornar a mãe do Messias, pergunta como pode isso acontecer, sendo ela uma virgem. Gabriel garante que não será obra humana: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra» [Ibid, 35]. E acrescenta: «Nada é impossível a Deus» [Ibid, 37].

«Nada é impossível a Deus» (Lc 1,37)

Esta garantia, que significa que nenhuma declaração ou promessa de Deus ficará por cumprir – porque para Ele não há impossíveis – pode ser também formulada deste modo: com Deus, nada é impossível. De facto, a preposição do texto grego – “com”, ou “próximo”, ou “junto de” Deus – coloca em evidência a Sua proximidade em relação ao homem. É ao ser humano ou aos seres humanos que, quando estão em Deus e livremente aderem a Ele, nada é impossível.

«Nada é impossível a Deus» (Lc 1,37)

Como colocar em prática esta palavra de vida? Antes de mais nada, acreditando com uma grande confiança que Deus pode agir também dentro e para além dos nossos limites e vulnerabilidades, assim como nas situações mais obscuras da vida. 

Foi essa a experiência de Dietrich Bonhoeffer que, durante a prisão que o levaria ao suplício, escreveu: «Devemos imergir-nos sempre de novo no viver, falar, agir, sofrer e morrer de Jesus, para reconhecer aquilo que Deus promete e cumpre. É verdade […] que para nós já nada é impossível, porque nada é impossível para Deus; […] é verdade que nós não devemos pretender nada e que, apesar disso, podemos pedir tudo; é verdade que no sofrimento está escondida a nossa alegria e na morte a nossa vida… A tudo isto Deus disse “sim” e “Ámen” em Cristo. Este “sim” e este “Ámen” são a terra firme sobre a qual estamos» [D. Bonhoeffer, Resistenza e resa, ed. San Paolo, Cinisello Balsamo 1988, p. 474. Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) foi um teólogo e pastor luterano alemão, protagonista da resistência ao Nazismo].

«Nada é impossível a Deus» (Lc 1,37)

Na procura de superação do aparente “impossível” das nossas insuficiências, para chegar ao “possível” de uma vida coerente, um papel determinante é desempenhado pela dimensão comunitária, que se desenvolve onde os discípulos, vivendo entre eles o mandamento novo de Jesus, se deixam habitar individualmente e em conjunto, pelo poder de Cristo ressuscitado. Escreveu Chiara Lubich, em 1948, a um grupo de jovens religiosos: «Vamos em frente! Não com a nossa força, mesquinha e débil, mas com a omnipotência da Unidade. Eu constatei, e verifiquei pessoalmente, que Deus entre nós faz o impossível: o milagre! Se nos mantivermos fiéis ao testemunho que nos foi transmitido, […] o mundo verá a Unidade e com ela a plenitude do Reino de Deus» [C. Lubich, Cartas dos primeiros tempos. Editora Cidade Nova, Abrigada 2011, p. 164]. 

Há alguns anos, quando eu estava em África, encontrava muitas vezes jovens que queriam viver como cristãos e que me contavam as muitas dificuldades com que se embatiam quotidianamente no seu ambiente, para permanecerem fiéis aos compromissos da fé e aos ensinamentos do Evangelho. Falávamos durante horas e, no fim, chegávamos sempre à mesma conclusão: «Sozinhos é impossível, mas juntos vamos conseguir». É o que também nos assegura Jesus quando promete: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome (no meu amor), Eu estou no meio deles» [Cf. Mt 18, 20]. E com Ele tudo é possível.