Agosto de 2026
Patrizia Mazzola e Equipa
da Palavra de Vida
«A minha
alma glorifica o Senhor» (Lc
1, 46)
No primeiro
capítulo do seu Evangelho, Lucas oferece-nos a única página do Novo Testamento
em que as protagonistas são duas mulheres: Maria e Isabel.
Isabel vivia numa aldeia próxima de
Jerusalém, a cerca de 150 km de Nazaré. E Maria, logo após receber o anúncio do
anjo de que seria a mãe de Jesus (Lc 1,26-38), enfrenta essa
longa viagem para a visitar. Não conhecemos os pormenores do percurso. Sabemos
apenas que se dirigiu apressadamente para a montanha. Mas por que razão ia até
lá?
Maria foi
partilhar a sua alegria com alguém que, como ela, tinha recebido de Deus a
graça de esperar um filho, e também para estar ao seu lado e ajudá-la durante
os últimos meses da gravidez. É a história de duas mulheres, de duas
maternidades impossíveis. Quem melhor do que Isabel poderia compreendê-la e
partilhar esta experiência? Deste encontro brota o cântico do Magnificat.
«A minha
alma glorifica o Senhor» (Lc
1, 46)
«As suas
palavras são a expressão de um grande amor e de uma alegria intensíssima.
Explicam por que razão a sua alma e a sua vida se elevam no espírito. Maria não
diz: “Eu glorifico Deus”, mas sim “a minha alma…”. Era como se quisesse dizer:
toda a minha vida e todos os meus sentidos são arrebatados pelo amor de Deus
[…]»
[Martinho
Lutero, Comentário ao Magnificat, 1520], escreve Martinho Lutero no seu
comentário ao Magnificat.
O verbo
«glorificar», engrandecer, magnificar revela um sentimento de alegria,
despertado pela descoberta de que Deus é maior do que imaginávamos. A esta
alegria junta-se uma profunda humildade e um sentido profundo de gratidão e
reconhecimento.
Como sublinha Ermes Ronchi, «o Magnificat é
o evangelho de Maria, a sua boa notícia que alcança todas as gerações» [Ermes
Ronchi, Magnificat, una finestra aperta sul futuro, Avvenire, 12 agosto
2021].
Dez vezes a jovem de Nazaré refere ações que têm Deus como sujeito, como uma
espécie de novo decálogo, de dez novos mandamentos que invertem as lógicas do
mundo.
Surge
espontaneamente a pergunta: será que nós conservámos o sentido de admiração e
maravilha, na nossa vida quotidiana e na nossa oração, diante daquilo que Deus
realizou e continua a realizar? Sem abertura à novidade e às suas surpresas,
sem capacidade de nos maravilharmos, a fé torna-se uma oração cansada, que
gradualmente se apaga e se transforma num hábito social [Cfr. Papa
Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, Roma, 4 julho de 2021].
«A minha
alma glorifica o Senhor» (Lc 1, 46)
O cântico de
Maria não é simplesmente uma oração intimista de louvor, mas um
louvor profético, caracterizado por uma constante referência às passagens
da Escritura [Cfr.
Gérard Rossé, Il Vangelo di Luca, Città Nuova, 1992, p.69], que aponta a
direção da História segundo o coração de Deus. Louvá-Lo significa tomar o
partido dos pequenos, acreditar que o mundo pode e deve mudar.
As palavras
deste hino convidam-nos a compreender a ação salvadora de Deus na nossa
história pessoal e comunitária, da própria vivência pessoal à universal, do
momento presente até aos novos céus e à nova terra que a revolução social do
Evangelho inaugura.
«A minha
alma glorifica o Senhor» (Lc 1, 46)
Estas palavras
convidam-nos também a fazer da nossa vida um louvor vivo, a reconhecer todos os
dias as «grandes coisas», a unir a nossa voz à de Maria para proclamar que Deus
é fiel, que a sua misericórdia se estende de geração em geração e que o seu reino
de justiça e amor já se está a realizar entre nós.
Chiara Lubich
tinha compreendido esta dimensão revolucionária do cântico de Maria quando
escreveu aos jovens: «Leiam o Magnificat e nele encontrarão a
primeira e mais poderosa página da doutrina social cristã. Quem, e quando, a realizará plenamente?» [Chiara Lubich, Detti
Gen, Città Nuova, Roma 19744, p.57].
A pergunta
permanece em aberto e interpela-nos. A ação de Deus não deve permanecer
confinada à intimidade do coração, mas precisa de se manifestar nos
relacionamentos, na vida em comum e no roteiro das gerações vindouras.
