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terça-feira, 1 de setembro de 2026


 Palavra de Vida

Setembro de 2026


Claudio Cianfaglioni 

e equipa da Palavra de Vida


«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Será que se pode obrigar alguém a amar? Se entendermos o amor como um sentimento, é realmente impossível! Mas se, pelo contrário, o entendermos como uma dádiva de Deus, as coisas mudam. 

São Paulo, na Carta aos Romanos, de onde é retirada esta Palavra de Vida, descreve precisamente a relação entre a Lei e o amor, afirmando que o amor é o pleno cumprimento da Lei. Pouco antes, ele já nos tinha revelado a origem desse amor: «Mas Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.» (Rm 5,8). Também a Primeira Carta de São João afirma: «É nisto que consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e nos enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.» (1Jo 4,10)

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Ninguém pode dar o que não tem. Santo Agostinho tinha-o compreendido bem quando dizia, dirigindo-se diretamente a Deus: «Concede-me o que me ordenas e ordena-me o que quiseres» (Santo Agostinho, Confissões, X, 29,40). Recebemos a dádiva inestimável do amor de Deus e somos chamados a não o guardarmos para nós, mas a fazê-lo circular. De destinatários do amor de Deus, podemos tornar-nos protagonistas desse amor. De amados, somos chamados a tornarmo-nos amantes, participando assim na própria vida do Pai, do Filho e do Espírito Santo: o Amante, o Amado e o Amor. 

São Paulo assegura-nos que não temos qualquer outra dívida para com ninguém, senão a do amor recíproco, porque quem ama o próximo cumpriu a Lei (Cf. Rm 13, 8).

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

«O verdadeiro amor ao próximo – afirma Chiara Lubich – não faz mal algum. Leva-nos a viver todos os mandamentos de Deus, sem exceção, pois o seu primeiro objetivo é ajudar-nos a evitar todas as formas de mal em que poderíamos cair, tanto contra nós mesmos como contra os nossos irmãos e irmãs» (C. Lubich, Palavra de vida de setembro de 1993, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, p. 531).

Assim compreendidos, os mandamentos da Lei deixam de ser apenas uma obrigação para se tornarem uma dádiva do amor de Deus: não limitam o nosso amor, mas libertam-no plenamente.

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Para chegar a este «pleno cumprimento», o primeiro passo para amar o próximo é não lhe fazer mal. Depois, é preciso ir mais além, tornando-nos criativos no amor: «não é suficiente não praticar o mal contra o próximo – recordou-nos o Papa Francisco –, é necessário escolher fazer o bem aproveitando as ocasiões para dar bom testemunho de que somos discípulos de Jesus» (Papa Francisco, Audiência Geral, 3 de janeiro de 2018).

Como viver, então, esta Palavra de Vida? Coloquemos o amor no centro da nossa vida. Amemos os outros concretamente, como Jesus os amaria: é Ele a plenitude do amor, totalmente entregue a Deus e à humanidade. É d’Ele que podemos aprender a medida mais elevada do amor.

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Doris, uma jovem da Escócia, conta-nos: «Durante as nossas visitas regulares a um centro de apoio a pessoas sem-abrigo, entro num mundo muito diferente do meu. Sei que não conta tanto o que eu sinto, mas importa amar. Um dia, um homem com uma profunda tristeza estampada no rosto confidenciou-me que se sentia prestes a pôr fim a tudo, que até desejava morrer. Limitei-me a escutá-lo; depois partilhámos uma sandes e um café. Compreendi que escutar e estar presente já era uma forma de demonstrar amor. Quando chegou o momento de partir, ele abraçou-me com força e sorriu-me, dizendo que aquilo que estávamos a fazer era muito importante, não apenas para ele, mas para todos os que ali se encontravam. Senti a força extraordinária do amor. Talvez não o tenha “salvo”, mas a sua gratidão encheu-me de alegria, e isso, por si só, já tem um enorme poder.»

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Palavra de Vida

Novembro de 2024

Texto preparado por Letizia Magri e equipa da Palavra de Vida

«Ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver» (Mc 12,44)

Estamos na conclusão do capítulo 12 do Evangelho de Marcos. Jesus está no Templo de Jerusalém: observa e ensina. Através do Seu olhar, assistimos a uma cena cheia de personagens: pessoas que vão e vêm, funcionários do culto, nobres com longas vestes, ricos que lançam generosas ofertas no tesouro do Templo.

Aproxima-se também uma viúva. Faz parte de uma categoria de pessoas desfavorecidas social e economicamente. Ignorada por todos, lança no tesouro duas pequenas moedas. Jesus, porém, apercebe-se. Chama os discípulos e diz-lhes:

«Ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver» (Mc 12,44)

“Em verdade vos digo…”. São as palavras que introduzem os ensinamentos mais importantes. O olhar de Jesus, concentrado sobre a pobre viúva, convida-nos a olhar na mesma direção: ela é o modelo do discípulo.

A sua fé no amor de Deus é incondicional. O seu tesouro é o próprio Deus. Na sua entrega total a Ele, ela, na sua pobreza, deseja também dar tudo aquilo que pode. Este abandono confiante no Pai é, de certo modo, a antecipação do dom que Jesus fará de Si mesmo, muito em breve, através da Sua paixão e morte. É aquela “pobreza em espírito” e “pureza de coração” que Jesus proclamou e viveu.

Isto significa «depositar a nossa confiança não nas riquezas, mas no amor de Deus e na sua providência. […] Somos “pobres em espírito” quando nos deixamos orientar pelo amor para com os outros. É então que partilhamos o que temos, colocando-o à disposição de quem está em necessidade: um sorriso, o nosso tempo, os nossos bens, as nossas capacidades. Tendo oferecido tudo por amor, somos pobres, ou seja, esvaziamo-nos de nós mesmos, somos livres e temos o coração puro» (Cf. C. Lubich, Palavra de Vida de novembro de 2003, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma, 2017, p. 704.).

A proposta de Jesus muda a nossa mentalidade. No centro dos Seus cuidados estão os pequenos, os pobres, os últimos.

«Ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver» (Mc 12,44)

Esta Palavra de vida convida-nos, antes de tudo, a renovar a nossa plena confiança no amor de Deus e a sintonizarmo-nos com o Seu olhar, que vê para além das aparências, que não julga e que não depende do julgamento dos outros. Faz-nos a valorizar o positivo que existe em cada pessoa.

Além disso, sugere-nos o “dar tudo” como lógica evangélica que edifica uma comunidade pacificada, porque nos leva a cuidar uns dos outros. Encoraja-nos a viver o Evangelho no dia a dia, sem dar nas vistas; a dar com abundância e confiança; a viver com sobriedade, na partilha. Convida-nos a prestar atenção aos últimos, para aprender com eles.

Venant nasceu e cresceu no Burundi. Ele conta-nos: «Na aldeia, a minha família podia orgulhar-se de ter um grande terreno agrícola, com boas colheitas. A minha mãe, consciente de que tudo é providência do Céu, recolhia os primeiros frutos e distribuía-os sempre pelos vizinhos, começando pelas famílias mais necessitadas, reservando para nós uma pequena parte daquilo que sobrava. Deste exemplo aprendi o valor da dádiva desinteressada. Assim, compreendi que Deus me pedia para Lhe dar o melhor de mim, ou seja, para Lhe dar toda a minha vida».

sexta-feira, 1 de março de 2024

Palavra de Vida

Março de 2024

Parody Reyes e pela equipa da Palavra de Vida

«Cria em mim, ó Deus, um coração puro; e renova dentro de mim um espírito firme» (Sal 51[50],12)

A frase da Sagrada Escritura, que nos é proposta neste tempo quaresmal, faz parte do Salmo 51 (50), no versículo 12, com esta comovente e humilde invocação: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro; e renova dentro de mim um espírito firme”. Este salmo é conhecido com o nome de “Miserere”. Nele, o olhar do autor começa por sondar os esconderijos da alma humana para neles captar as fibras mais profundas, onde ressoa a nossa total inadequação perante Deus e, ao mesmo tempo, o insaciável anseio pela plena comunhão com Aquele do qual procede toda a graça e misericórdia. 

«Cria em mim, ó Deus, um coração puro; e renova dentro de mim um espírito firme» (Sal 51[50],12)

O salmo parte de um episódio bem conhecido da vida de David. Ele, chamado por Deus a cuidar do povo de Israel e a guiá-lo pelos caminhos da obediência à Aliança, atraiçoa a própria missão: depois de ter cometido adultério com Betsabé, faz com que o marido – Urias, o Hitita, oficial do seu exército – morra em batalha. O profeta Natan revela-lhe a gravidade da sua culpa e ajuda-o a reconhecê-la. Este é o momento da confissão do seu pecado e da reconciliação com Deus.

«Cria em mim, ó Deus, um coração puro; e renova dentro de mim um espírito firme» (Sal 51[50],12)

O salmista coloca na boca do rei invocações muito fortes, que brotam do seu profundo arrependimento e da total confiança no perdão divino: “apaga”, “lava-me”, “purifica-me”. Principalmente, no versículo que abordamos, usa o verbo “cria” para indicar que a completa libertação da fragilidade humana só é possível a Deus. É a consciência de que só Ele nos pode tornar criaturas novas com um “coração puro”, enchendo-nos com o Seu espírito vivificante, dando-nos a verdadeira alegria e transformando radicalmente o nosso relacionamento com Deus (o “espírito firme”) e com os outros, com a natureza e o cosmos.

«Cria em mim, ó Deus, um coração puro; e renova dentro de mim um espírito firme» (Sal 51[50],12)

Como pôr em prática esta palavra de vida? O primeiro passo será reconhecer-nos pecadores e necessitados do perdão de Deus, numa atitude de ilimitada confiança para com Ele. 

Pode acontecer que os nossos repetidos erros nos desencorajem, nos fechem em nós mesmos. É preciso, então, deixar entreaberta, pelo menos um pouco, a porta do nosso coração. Escreveu Chiara Lubich, em 1946, a alguém que se sentia incapaz de ultrapassar as suas misérias: «É preciso retirar da alma todos os outros pensamentos. Acreditar que Jesus é atraído para nós pela exposição humilde, confiante e amorosa dos nossos pecados. Nós, por nós mesmas, nada temos e só fazemos misérias. Ele, por Si mesmo, em relação a nós, só tem uma qualidade: a Misericórdia. A nossa alma pode unir-se a Ele com a oferta, com a única prenda, não das nossas virtudes, mas dos nossos pecados! […] Jesus veio à Terra, fez-se homem, e, se alguma coisa anseia […] é unicamente: ser Salvador. Ser Médico! Nada mais deseja» (C. Lubich, Cartas dos primeiros tempos, Cidade Nova, Abrigada 2011, p. 111).

«Cria em mim, ó Deus, um coração puro; e renova dentro de mim um espírito firme» (Sal 51[50],12)

Assim libertados e perdoados, com a ajuda dos irmãos – porque a força do cristão vem da comunidade – podemos amar concretamente o próximo, quem quer que ele seja. «Aquilo que nos é pedido é um amor recíproco, de serviço, de compreensão, de participação nos sofrimentos, nos anseios e nas alegrias dos nossos irmãos; um amor que tudo cobre, tudo perdoa, típico do cristão» (C. Lubich, Palavra de Vida de maio de 2002, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, pp. 658-659). Por fim, diz o Papa Francisco: «o perdão de Deus […] é o maior sinal da sua misericórdia. Uma dádiva que cada […] pessoa perdoada é chamada a partilhar com cada irmão e irmã que encontra. Todos aqueles que o Senhor colocou ao nosso lado, os familiares, os amigos, os colegas, os paroquianos… todos são, como nós, necessitados da misericórdia de Deus. É bom ser-se perdoado, mas também tu, se quiseres ser perdoado, deves perdoar. Perdoa! […] Para sermos testemunhas do seu perdão, que purifica o coração e transforma a vida» (Papa Francisco, Audiência Geral, 30 de março de 2016). 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Palavra de Vida

Fevereiro 2024

Letizia Magri e equipa da Palavra de Vida

«Que, entre vós, tudo se faça com amor.» (1Cor 16,14) [1]

Este mês, como lâmpada para os nossos passos [Cf. Sal 119 [118], 105], deixemo-nos iluminar pela palavra e pela experiência do apóstolo Paulo.

Ele anuncia-nos, também a nós, como aos cristãos de Corinto, uma poderosa mensagem: o coração do Evangelho é a caridade, a ágape, o amor desinteressado entre irmãos. 

A nossa Palavra de Vida faz parte da conclusão desta Carta, em que a caridade é amplamente recordada e explicada em todas as suas caraterísticas: é paciente, benevolente, rejubila com a verdade, não procura o próprio interesse [Cf. cap. 13]…

O amor recíproco, se for vivido na comunidade cristã, é bálsamo para as divisões que sempre a ameaçam e sinal de esperança para toda a humanidade. 

«Que, entre vós, tudo se faça com amor.» (1Cor 16,14)

Impressiona que Paulo – no texto grego – exorte a agir “estando no amor”, como a indicar-nos uma condição estável, uma inabitação em Deus, que é Amor.

Como poderemos, de facto, acolher-nos reciprocamente e acolher cada pessoa com esta atitude, senão a partir do reconhecimento de que nós próprios somos amados por Deus, até nas nossas fragilidades?

É com esta renovada consciência que é possível abrirmo-nos sem medo aos outros, para compreender as suas necessidades e para nos colocarmos ao seu lado, partilhando recursos materiais e espirituais.

Olhemos para o modo como Jesus atuou; é Ele o nosso modelo.

Ele foi sempre o primeiro a dar: «[…] a saúde aos doentes, o perdão aos pecadores, a vida a todos nós. Ao instinto egoísta de acumular opõe a generosidade; à concentração nas próprias necessidades, a atenção aos outros; à cultura do ter, a cultura do dar. Não interessa se podemos dar muito ou pouco. O importante é o modo como damos, quanto amor colocamos até num pequeno gesto de atenção aos outros. […] É essencial o amor, porque sabe ir ao encontro do próximo numa atitude de escuta, de serviço, de disponibilidade. Como é importante […] procurar ser o amor junto de cada um! Encontraremos o caminho direto para entrar no seu coração e elevá-lo» [C. Lubich, Palavra de Vida de outubro de 2006, em Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5) Città Nuova, Roma 2017, pp. 791-792.].

«Que, entre vós, tudo se faça com amor.» (1Cor 16,14)

Esta Palavra ensina a aproximarmo-nos dos outros com respeito, sem falsidade, com criatividade, dando espaço às suas mais belas aspirações, para que cada um dê o seu próprio contributo para o bem comum.

Ajuda-nos a valorizar cada ocasião concreta da nossa vida quotidiana: «[…] desde o trabalho em casa, nos campos ou nas oficinas, aos trâmites burocráticos, às tarefas escolares, até às responsabilidades no campo civil, político ou religioso. Tudo se pode transformar em serviço atento e gentil» [ Ibid. p. 792. ].

Poderemos imaginar um mosaico de Evangelho vivido na simplicidade.

Dois pais escreveram: «Quando uma vizinha, angustiada, nos disse que o seu filho estava na prisão, combinámos ir visitá-lo. Jejuámos no dia anterior à visita, esperando ter a graça de lhe dizer as palavras certas. Depois, pagámos a caução para que fosse libertado» [S. Pellegrini, G. Salerno e M. Caporale, Famílias em ação – Um mosaico de vida, Cidade Nova 2022, p. 71.].

Um grupo de jovens de Buea (sudoeste dos Camarões) organizou uma recolha de bens e de fundos para ajudar os refugiados internos, por causa da guerra em curso [Texto adaptado do site https://www.unitedworldproject.org/pt-br/workshop/camaroes-partilha-com-pessoas-deslocadas/.]. Visitaram um homem que perdeu um braço durante a fuga. Conviver com esta incapacidade tornou-se para ele um grande desafio, porque os seus hábitos mudaram drasticamente. «Disse-nos que a nossa visita lhe deu esperança, alegria e confiança. Sentiu o amor de Deus através de nós», contou a Regina. Acrescentou a Marita: «Depois desta experiência, estou realmente convencida que nenhuma dádiva é pequena se for feita com amor… Não é preciso mais nada: é o amor que faz mover o mundo. Experimentemo-lo!»

[1] Este mês, a Palavra de Vida que nos é proposta é a mesma que um grupo de cristãos de várias igrejas da Alemanha escolheu para viver durante todo este ano.

domingo, 1 de outubro de 2023

 

Palavra de Vida

Outubro de 2023

Texto preparado por Letizia Magri e pela equipa da Palavra de Vida

«Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.» (Mt 22, 21)

Jesus tinha entrado em Jerusalém aclamado pelo povo como “Filho de David”. É um título real que o Evangelho de Mateus atribui a Cristo, que veio para proclamar a chegada iminente do Reino de Deus.

Neste contexto, surge um diálogo peculiar entre Jesus e um grupo de pessoas que o questionam. Alguns eram herodianos, outros fariseus, dois grupos com visões diferentes sobre a autoridade do imperador romano: perguntam-Lhe se considera lícito ou não pagar os impostos ao imperador, para O obrigarem a declarar-se a favor ou contra César e terem assim um motivo para O acusar.

Jesus responde com outra pergunta: de quem é a imagem gravada na moeda que usam correntemente. Uma vez que a imagem é do imperador, responde:

«Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.» (Mt 22, 21)

Sim, mas o que é devido a César e o que é a Deus?

Jesus apela ao primado de Deus. De facto, como sobre a moeda romana está gravada a imagem do imperador, também em cada pessoa humana está gravada a imagem de Deus.

A própria tradição rabínica afirma que cada homem é criado à imagem de Deus (Cf. Gn 1, 26), usando o exemplo da imagem gravada sobre as moedas: “Quando um homem manda cunhar moedas com o seu próprio selo, são todas iguais. Mas o rei dos reis, o Santo a quem é devido o louvor, formou cada homem com o seu cunho desde o primeiro homem, e nenhum é igual ao seu companheiro” (Mishnà Sanhedrin 4,5).

Portanto, só a Deus podemos entregar-nos inteiramente, só a Ele pertencemos e Nele encontramos a liberdade e a dignidade. Nenhum poder humano pode pretender receber essa fidelidade.

Jesus é aquele que conhece a Deus e nos pode ajudar a dar-Lhe o lugar que Lhe é devido. Para Ele: «[…] amar significou cumprir a vontade do Pai, colocando à disposição o pensamento, o coração, as energias, a própria vida: Ele entregou-se completamente ao projeto que o Pai lhe tinha reservado. O Evangelho apresenta-nos Jesus sempre e totalmente voltado para o Pai […]. Ele pede-nos o mesmo a nós: amar significa fazer a vontade do Amado, sem meios-termos, com todo o nosso ser. […] É aqui que nos é pedida a maior radicalidade, porque a Deus não se pode dar menos do que tudo: todo o coração, toda a alma, toda o entendimento» (C. Lubich, Parola di Vita ottobre 2002, in eadem, Parole di Vita, a cura di Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5; Città Nuova, Roma 2017) pp. 669-670).

«Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.» (Mt 22, 21)

Quantas vezes somos confrontados com dilemas, escolhas difíceis que nos podem fazer resvalar na tentação de atalhos mais fáceis. Também Jesus foi posto à prova diante de duas soluções ideológicas, mas para Ele foi claro: a prioridade é a vinda do Reino de Deus, com o primado do amor.

Deixemo-nos interpelar por esta Palavra. Será que o nosso coração se deixa fascinar pelo prestígio, pelas subidas fulgurantes na carreira? Será que admira as pessoas de sucesso, aqueles que ditam a moda? Será que estamos a dar às coisas o lugar que é devido a Deus?

Com a Sua resposta, Jesus propõe-nos um salto de qualidade. Convida-nos a um discernimento sério e aprofundado sobre a nossa escala de valores.

No íntimo da nossa consciência podemos escutar uma voz, por vezes subtil e possivelmente abafada por outras vozes. Mas podemos reconhecê-la: é aquela que nos impulsiona a procurar sempre caminhos de fraternidade e nos encoraja a renovar constantemente esta escolha, mesmo que tenhamos de ir contra a corrente.

É um exercício fundamental para construir as bases de um autêntico diálogo com os outros, para encontrar juntos as respostas adequadas à complexidade da vida. Não se trata de fugir à responsabilidade pessoal perante a sociedade, mas, pelo contrário, de se dedicar desinteressadamente ao serviço do bem comum.

Durante a detenção que antecedeu a execução, por causa da sua resistência civil ao nazismo, Dietrich Bonhoeffer escreveu à sua noiva: «Não me refiro à fé que foge do mundo, mas àquela que resiste no mundo, ama e permanece fiel à Terra, apesar de todas as tribulações que ela nos traz. O nosso matrimónio deve ser um “sim” à terra de Deus, deve reforçar em nós a coragem de agir e de criar alguma coisa nesta Terra. Temo que os cristãos que ousam estar sobre a terra só com um pé, também estarão só com um pé no céu» (Dietrich Bonhoeffer, Maria von Wedemeyer, Lettere alla fidanzata, Cella 92, Queriniana, Brescia 1992, 48).

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Palavra de Vida

Setembro 2023

Texto preparado por Augusto Parody Reyes e pela equipa da Palavra de Vida

«Quero bendizer-Vos, dia após dia, e louvar o vosso nome para sempre». (Sl 145 [144], 2)

A palavra da Escritura que nos é proposta neste mês, como ajuda para o nosso caminho, é uma oração. Trata-se de um versículo do Salmo 145. Os Salmos são composições que refletem a experiência religiosa individual e coletiva do povo de Israel, no seu percurso histórico e nas várias vicissitudes da sua existência. São orações em poesia que se dirigem ao Senhor como lamentação, como súplica, como ação de graças ou como louvor. Incluem, por isso, toda a variedade de sentimentos e atitudes com que o homem exprime a sua vida e o seu relacionamento com o Deus vivo.

O tema de fundo do salmo 145 é a realeza de Deus. O salmista, a partir da sua experiência pessoal, exalta a grandeza de Deus: “Grande é o Senhor e digno de todo o louvor” (v. 3); canta a Sua bondade e a universalidade do Seu amor: “O Senhor é bom para com todos e a sua misericórdia estende-se a todas as criaturas.” (v. 9); reconhece a Sua fidelidade: “O Senhor é fiel à sua palavra” (v. 13b), e chega a envolver todos os seres vivos num cântico cósmico: “Cante a minha boca os louvores do Senhor, e todo o ser vivo bendiga eternamente o seu nome santo!” (v. 21).

«Quero bendizer-Vos, dia após dia, e louvar o vosso nome para sempre». (Sl 145 [144], 2)

Todavia, o homem de hoje sente-se por vezes perdido, com a sensação de estar abandonado a si mesmo. Teme que os acontecimentos do seu dia-a-dia sejam determinados pelo acaso, numa sucessão de factos sem sentido e sem rumo. 

Este salmo contém uma reconfortante mensagem de esperança: «Deus é o Criador do céu e da Terra, é o guarda fiel do pacto que O liga ao seu povo, é Aquele que age com justiça em relação aos oprimidos, dá o pão que sustém os famintos e liberta os prisioneiros. É Ele que abre os olhos aos cegos, levanta os que caíram, ama os justos, protege o estrangeiro e ajuda o órfão e a viúva» […] (João Paulo II. Audiência Geral, 2 julho de 2003, Comentário ao Salmo 145).

«Quero bendizer-Vos, dia após dia, e louvar o vosso nome para sempre». (Sl 145 [144], 2)

Esta palavra convida-nos, antes de mais, a cuidar da nossa relação pessoal com Deus, acolhendo, sem reservas, o Seu amor e a Sua misericórdia e colocando-nos diante do mistério em atitude de escuta da Sua voz. É este o fundamento de toda a oração. Porém, como este amor nunca se pode desligar do amor ao próximo, só conseguimos sentir a Sua presença, na nossa vida quotidiana, quando imitamos Deus Pai no amor concreto a cada irmão e irmã, especialmente os últimos, os rejeitados, os que vivem sós. Chiara Lubich, quando foi convidada a contar a sua experiência cristã a uma assembleia de budistas, resumia-a assim: «… o coração da minha experiência está todo aqui: quanto mais se ama o próximo, mais se encontra Deus. Quanto mais se encontra Deus, mais se ama o próximo» (M. Vandeleene, Io, il fratello, Dio nel pensiero di Chiara Lubich, Città Nuova, Roma 1999, p. 252 [3]).

«Quero bendizer-Vos, dia após dia, e louvar o vosso nome para sempre». (Sl 145 [144], 2)

Mas há um outro caminho para O encontrar. Nas últimas décadas, a humanidade adquiriu uma nova consciência da questão ecológica. Os animadores desta mudança são sobretudo os jovens, que propõem um estilo de vida mais sóbrio, uma revisão dos modelos de desenvolvimento, um compromisso pelo direito de todos os habitantes do planeta a terem água, alimentos e ar despoluído, bem como pela procura de fontes de energia renováveis. Deste modo, o ser humano não só recupera a relação com a natureza, mas pode também louvar a Deus, tendo descoberto com admiração a Sua ternura por toda a Criação.

É a experiência de Venant M. que, desde criança, no seu Burundi natal, acordava ao amanhecer com o canto dos pássaros e percorria, pela floresta, dezenas de quilómetros para ir à escola. Sentia-se em plena sintonia com as árvores, os animais, os riachos, as colinas e os próprios companheiros. Sentia-se próximo da natureza, mais ainda, sentia-se parte viva de um ecossistema em que as criaturas e o Criador estavam em total harmonia. Esta consciência tornava-se louvor, não por um momento, mas durante todo o dia.

Alguém poderia questionar-se: e nas nossas cidades? «Nas nossas metrópoles de cimento, construídas por mãos humanas no meio do ruído do mundo, só raramente a natureza se salvou. Contudo, se quisermos, basta um vislumbre do céu azul, entrevisto entre os cimos dos arranha-céus, para nos fazer lembrar de Deus. Basta um raio de sol, que teima em entrar até por entre as grades de uma prisão. Basta uma flor, um pedaço de relva, o rosto de uma criança…» (C. Lubich, Conversazioni, in collegamento telefonico, a/c Michel Vandeleene (Opere di Chiara Lubich 8.1), Città Nuova, Roma 2019, p. 340).

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Palavra de Vida

Julho de 2022

Letizia Magri

«Mas uma só coisa é necessária». (Lc 10,42)

Estando a caminho de Jerusalém – onde em breve deveria dar cumprimento à sua missão –, Jesus pára numa aldeia, em casa de Marta e de Maria. O evangelista Lucas descreve do seguinte modo o acolhimento dado a Jesus por parte das duas irmãs: Marta, desempenhando o tradicional papel de dona de casa, «andava atarefada com muitos serviços» (Lc 10,40. O verbo perispàomai tem uma dúplice interpretação: pode significar “estar completamente ocupado/estar fortemente sobrecarregado”, ou “estar distante/distraído”) exigidos pela hospitalidade, enquanto Maria, «sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra» (v. 39). À atenção de Maria contrapõe-se a agitação de Marta. Por isso, perante as suas queixas por ter sido deixada sozinha a servir, Jesus responde: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas, mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada» (vv. 41-42). Esta passagem encontra-se entre a parábola do bom samaritano – talvez a página mais sublime no que se refere à caridade para com o próximo – e aquela em que Jesus ensina os seus discípulos a rezar – sem dúvida a página mais sublime sobre o relacionamento com Deus-Pai. Indica assim o equilíbrio entre o amor aos irmãos e o amor a Deus.

«Mas uma só coisa é necessária». (Lc 10,42)

As protagonistas desta passagem do evangelho são duas mulheres. O diálogo entre Jesus e Marta descreve bem a sua relação de amizade, que permite até que ela se lamente com o Mestre. Mas qual é o serviço que Jesus deseja? Para Ele, é importante que Marta não esteja agitada, que deixe o papel tradicional atribuído às mulheres e se coloque também ela à escuta da Sua Palavra. Como Maria, que assume um papel novo, o de discípula. A mensagem deste texto foi muitas vezes reduzida a uma contraposição entre a vida ativa e a vida contemplativa, como se fossem duas abordagens alternativas. Mas tanto Marta como Maria amam Jesus e querem servi-Lo. No Evangelho, de facto, não se diz que a oração e a escuta da Palavra são mais importantes do que a caridade. O importante é encontrar o modo de ligar estes dois amores de maneira indissolúvel. Dois amores, o amor a Deus e o amor ao próximo, que não se contrapõem, mas são complementares porque o Amor é um só.

«Mas uma só coisa é necessária». (Lc 10,42)

Falta então compreender bem qual é a única coisa necessária. Para isso, pode ajudar-nos o início da frase: “Marta, Marta…” (v. 41). Esta repetição do nome pode parecer quase como o anúncio de uma repreensão, mas não é. Na realidade, expressa a modalidade própria dos “chamamentos-vocações”. Portanto, vemos que Jesus chama Marta a um novo modo de se relacionar, a tecer um relacionamento que não seja o de um servo, mas de um amigo que estabelece com Ele um relacionamento profundo. 

Chiara Lubich escreve: «Jesus aproveitou esta circunstância para explicar aquilo que é mais necessário na vida do homem. […] Escutar a Palavra de Jesus. Para Lucas, que escreve esta passagem, escutar a palavra significa também vivê-la. […] É isto que também tu deves fazer: acolher a palavra, deixar que ela realize em ti uma transformação. Não só, mas permanecer-lhe fiel, conservando-a no coração para que molde a tua vida, tal como a terra guarda a semente no seu seio para que venha a germinar e dar fruto. Portanto, dar frutos de vida nova, resultantes da palavra» (C. Lubich, Palavra de Vida de julho de 1980, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, pp. 176-177).

«Mas uma só coisa é necessária». (Lc 10,42)

Quem sabe quantas ocasiões temos também nós para acolher o Mestre na intimidade da nossa casa, tal como Marta e Maria. Quantas possibilidades de nos colocarmos aos seus pés, em atitude de escuta, como verdadeiros discípulos. Mas, muitas vezes, perdemo-nos com a preocupação das coisas para fazer, com as doenças, os compromissos e até com as alegrias e satisfações, não conseguindo parar para reconhecer o Senhor, para O escutar.

Esta Palavra é uma oportunidade preciosa para nos exercitarmos na escolha da melhor parte, ou seja: escutar a Sua palavra para chegar àquela liberdade interior que nos levará a agir em conformidade com ela na nossa vida quotidiana. Um agir que é fruto de um relacionamento de amor que dá sentido quer ao serviço quer à escuta.