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terça-feira, 1 de setembro de 2026


 Palavra de Vida

Setembro de 2026


Claudio Cianfaglioni 

e equipa da Palavra de Vida


«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Será que se pode obrigar alguém a amar? Se entendermos o amor como um sentimento, é realmente impossível! Mas se, pelo contrário, o entendermos como uma dádiva de Deus, as coisas mudam. 

São Paulo, na Carta aos Romanos, de onde é retirada esta Palavra de Vida, descreve precisamente a relação entre a Lei e o amor, afirmando que o amor é o pleno cumprimento da Lei. Pouco antes, ele já nos tinha revelado a origem desse amor: «Mas Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores.» (Rm 5,8). Também a Primeira Carta de São João afirma: «É nisto que consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e nos enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.» (1Jo 4,10)

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Ninguém pode dar o que não tem. Santo Agostinho tinha-o compreendido bem quando dizia, dirigindo-se diretamente a Deus: «Concede-me o que me ordenas e ordena-me o que quiseres» (Santo Agostinho, Confissões, X, 29,40). Recebemos a dádiva inestimável do amor de Deus e somos chamados a não o guardarmos para nós, mas a fazê-lo circular. De destinatários do amor de Deus, podemos tornar-nos protagonistas desse amor. De amados, somos chamados a tornarmo-nos amantes, participando assim na própria vida do Pai, do Filho e do Espírito Santo: o Amante, o Amado e o Amor. 

São Paulo assegura-nos que não temos qualquer outra dívida para com ninguém, senão a do amor recíproco, porque quem ama o próximo cumpriu a Lei (Cf. Rm 13, 8).

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

«O verdadeiro amor ao próximo – afirma Chiara Lubich – não faz mal algum. Leva-nos a viver todos os mandamentos de Deus, sem exceção, pois o seu primeiro objetivo é ajudar-nos a evitar todas as formas de mal em que poderíamos cair, tanto contra nós mesmos como contra os nossos irmãos e irmãs» (C. Lubich, Palavra de vida de setembro de 1993, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, p. 531).

Assim compreendidos, os mandamentos da Lei deixam de ser apenas uma obrigação para se tornarem uma dádiva do amor de Deus: não limitam o nosso amor, mas libertam-no plenamente.

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Para chegar a este «pleno cumprimento», o primeiro passo para amar o próximo é não lhe fazer mal. Depois, é preciso ir mais além, tornando-nos criativos no amor: «não é suficiente não praticar o mal contra o próximo – recordou-nos o Papa Francisco –, é necessário escolher fazer o bem aproveitando as ocasiões para dar bom testemunho de que somos discípulos de Jesus» (Papa Francisco, Audiência Geral, 3 de janeiro de 2018).

Como viver, então, esta Palavra de Vida? Coloquemos o amor no centro da nossa vida. Amemos os outros concretamente, como Jesus os amaria: é Ele a plenitude do amor, totalmente entregue a Deus e à humanidade. É d’Ele que podemos aprender a medida mais elevada do amor.

«A caridade não faz mal ao próximo.

A caridade é o pleno cumprimento da lei» 

(Rm 13,10)

Doris, uma jovem da Escócia, conta-nos: «Durante as nossas visitas regulares a um centro de apoio a pessoas sem-abrigo, entro num mundo muito diferente do meu. Sei que não conta tanto o que eu sinto, mas importa amar. Um dia, um homem com uma profunda tristeza estampada no rosto confidenciou-me que se sentia prestes a pôr fim a tudo, que até desejava morrer. Limitei-me a escutá-lo; depois partilhámos uma sandes e um café. Compreendi que escutar e estar presente já era uma forma de demonstrar amor. Quando chegou o momento de partir, ele abraçou-me com força e sorriu-me, dizendo que aquilo que estávamos a fazer era muito importante, não apenas para ele, mas para todos os que ali se encontravam. Senti a força extraordinária do amor. Talvez não o tenha “salvo”, mas a sua gratidão encheu-me de alegria, e isso, por si só, já tem um enorme poder.»

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Palavra de Vida

Julho 2026

Letizia Magri  e equipa da Palavra de Vida

 

«E aquele que recebeu a semente em boa terra

é o que ouve a Palavra e a compreende:

esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta»

(Mt 13,23)

Depois de ter falado em parábolas a uma grande multidão, à beira do lago de Tiberíades, Jesus dirige-se aos discípulos e explica-lhes o significado profundo das suas palavras.

A protagonista da nossa narrativa é a Palavra de Deus, comparada a uma semente pequena e frágil. As pedras, os espinhos e os pássaros podem impedir que ela germine, que crie raízes e produza espigas maduras, mas o sábio semeador conhece a sua surpreendente vitalidade.

Através destas imagens, Jesus revela o relacionamento entre o ser humano e a Palavra que Deus oferece com abundância. Há quem a acolha e há quem, por vários motivos, a deixe cair sem produzir fruto. De facto, no coração humano, a superficialidade e as excessivas preocupações materiais ameaçam o milagre da vida sobrenatural, que o próprio Deus deseja acender nas suas criaturas.

Também nós, como os discípulos, somos convidados por Jesus a entrar no humilde mistério do amor de Deus e, ao mesmo tempo, somos interpelados pessoalmente para uma decisão: que tipo de “terra” queremos ser?

«E aquele que recebeu a semente em boa terra

é o que ouve a Palavra e a compreende:

esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta»

(Mt 13,23)

Ouvir e compreender: está aqui o segredo para fazer de nós uma terra acolhedora, onde a semente da Palavra pode manifestar a sua força e produzir bons frutos.

Quão preciosa é a disponibilidade para escutar: é o espaço espiritual onde se dá lugar à vida de Deus, que sempre nos precede com a sua misericórdia, com a paciência do trabalhador que conhece e respeita os tempos da maturação.

Como escreveu Chiara Lubich, as palavras de Deus «iluminam interiormente não apenas o pensamento, mas todo o nosso ser, porque são luz, amor e vida. Dão paz – aquela que Jesus chama sua: “a minha paz” – mesmo nos momentos de desorientação e angústia. Dão alegria plena até no meio do sofrimento que por vezes oprime a alma. Dão força sobretudo quando surge o desânimo ou nos falta a coragem. Tornam-nos livres porque abrem o caminho da Verdade. […] Também em nós deve nascer um amor apaixonado pela Palavra de Deus: escutamo-la com atenção quando é proclamada nas igrejas, lemo-la, estudamo-la, meditamo-la… Mas, acima de tudo, somos chamados a vivê-la. […] Vivendo uma palavra de Jesus, vivemos todo o Evangelho, porque em cada uma das suas palavras Ele dá-se totalmente, Ele próprio vem viver em nós […] e substitui a nossa maneira de pensar, de querer e de agir em todas as circunstâncias da vida» [C. Lubich, Palavra de Vida de março de 2003, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma, 2017, pp. 684-685].

«E aquele que recebeu a semente em boa terra

é o que ouve a Palavra e a compreende:

esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta»

(Mt 13,23)

Wambil, do México, conta-nos: «Houve um tempo em que me sentia aprisionado num buraco profundo. Estava numa relação violenta e tentava fugir e resolver tudo com as minhas próprias forças. Influenciado pelas redes sociais e pelo ruído exterior, muitas vezes corria atrás de coisas que não eram guiadas por Deus. Apesar de todos os meus esforços, continuava a sentir-me vazio e sem rumo. Sabia que o amor é uma linguagem universal. Quando comecei a fazer voluntariado, encontrei uma realização que só podia vir de Deus. Com o tempo, descobri um lugar onde podia ouvir a Sua palavra e crescer na relação com Ele. Estou profundamente grato.»

Mesmo quando nos sentimos terra árida e pedregosa, é a própria Palavra que se torna eficaz, como revela o profeta Isaías: «Assim como a chuva e a neve, que descem do céu, não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, (…) assim a palavra, que sai da minha boca, não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão.» (Is 55,10-11).

Apoiados por esta esperança, num tempo dominado por medos e tensões, cultivemos também a confiança nas mulheres e nos homens com quem partilhamos a vida. Acreditemos na sua capacidade de dar bons frutos, criando ocasiões de escuta e diálogo, para caminharmos juntos rumo ao horizonte da fraternidade.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Palavra de Vida

Junho de 2026

Augusto Parody Reyes  e equipa da Palavra de Vida 

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

Neste capítulo do Evangelho de Mateus, os apóstolos tinham sido escolhidos por Jesus, que os chamou pelo nome, conferindo-lhes poderes especiais para expulsar os espíritos impuros e o dom de curar toda a espécie de doenças e enfermidades. Jesus dá-lhes instruções sobre onde e como realizar a sua missão inicial. A mensagem que devem anunciar é clara: «Está perto o reino dos Céus» (Mt 10,7).

A indicação de proclamar “pelo caminho” a mensagem que lhes foi confiada, sublinha, por um lado, que o verdadeiro discípulo é, antes de mais, um pregador da proximidade, e, por outro lado, que o próprio modo de caminharem juntos deve ser anúncio. De facto, no Evangelho de João, a seguir à entrega do mandamento novo, Jesus afirma: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35).

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

O “reino dos Céus” é o coração do anúncio de Jesus. A expressão similar “reino de Deus” é usada no Antigo Testamento para indicar o domínio, o governo e a ação salvífica de Deus na história humana. Ele é o Senhor do mundo e sobretudo do povo de Israel, na expetativa de um descendente do rei David que restabelecerá o papel de Israel no meio dos povos. No Novo Testamento, Jesus é apresentado como o descendente de David e, portanto, rei. Diversamente dos reinos do mundo, o “reino dos Céus” é um reino de paz e de justiça, em que se cuida dos pobres, em que vigoram o perdão e a reconciliação e que levará vida e luz a todas as nações. Trata-se de um reino que já começou no mundo e no coração das pessoas, mas que verá a sua realização completa no regresso de Jesus.

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

Jesus anuncia que o reino está temporalmente “perto”, iminente. Pelas parábolas, como a do grão de mostarda e a do fermento que leveda toda a massa, compreende-se que ele atua de modo misterioso e humilde, mas tenaz, no decurso do tempo. “Perto” entende-se também no sentido geográfico. Quando os discípulos, que levam a presença do espírito de Jesus, se aproximam caminhando, aproxima-se o reino de Deus. Também no Evangelho de Marcos, quando Jesus diz ao escriba «Não estás longe do Reino de Deus» (Mc 12,34), é provável que quisesse dizer não apenas “Começaste a entender”, mas também “Não estás longe de mim”.

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

“De graça” traduz um termo que no original grego significa “como um presente”. Isto torna evidente que tudo o que os apóstolos receberam não lhes foi dado porque o mereciam. A fonte é a generosidade de Deus e o facto que foram escolhidos para uma missão específica.

Escreveu Chiara Lubich: «O reino de Deus é para ser acolhido. É um dom que Deus te faz. De facto, não há nenhum esforço humano, nenhuma tentativa ascética, nenhum estudo ou investigação intelectual, que te levem a entrar no reino de Deus. É o próprio Deus que vem ao teu encontro, que se revela com a Sua luz ou te toca com a sua graça. E não há nenhum mérito de que te possas vangloriar ou sobre o qual te possas apoiar para ter direito a um tal dom de Deus. O reino de Deus é-te oferecido gratuitamente» (Cfr. C. Lubich, Parole di Vita, a/c di Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, pp. 152-153). Neste acolhimento somos chamados, também hoje, a continuar a missão confiada por Jesus aos apóstolos, a proclamar, com a palavra e com os factos, a proximidade do reino, a anunciar juntos, a todos os seres humanos, uma mensagem de esperança: Deus ama imensamente este nosso mundo tão conturbado e incerto, Deus ama-nos a todos imensamente.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

 

Palavra de Vida

Janeiro de 2026

Patrizia Mazzola e equipa da Palavra de Vida 

       «Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados» (Ef 4,4)

         Na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos somos convidados a concentrar a nossa atenção num tema específico, que é mencionado na Carta de S. Paulo aos Efésios. Nas chamadas “cartas da prisão”, ele exorta os seus destinatários a dar testemunho credível da sua fé através da unidade.

         Ela está assente numa única fé, num só espírito, numa só esperança, e só através dela se pode dar testemunho de Cristo como “corpo”.

       «Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados» (Ef 4,4)

         Paulo convida-nos a ter esperança. O que é a esperança e porque somos chamados a vivê-la? É um rebento, uma dádiva e uma tarefa que temos o dever de proteger, de cultivar e de fazer frutificar para o bem de todos. «A esperança cristã coloca-nos naquela estreita linha cumeeira, naquela fronteira onde a nossa vocação exige a decisão, em cada dia e em cada hora, de sermos fiéis à fidelidade de Deus por nós» [Madeleine Delbrêl, considerada por muitos uma das personalidades espirituais mais importantes do século XX. https://www.pasomv.it/files/bocc/madalein_del_brel_noi_spes.pdf.].

         A nossa vocação, o chamamento para os cristãos não é um assunto apenas entre cada um e Deus, mas é uma “convocatória”, é sermos chamados juntos, é a unidade entre todos os que se comprometem a viver o Evangelho. Nos discursos e nos escritos de Chiara Lubich encontramos frequentes e explícitas referências à unidade, ponto característico da sua espiritualidade: ela é fruto da presença de Jesus entre nós. E esta presença é fonte de profunda felicidade.

         «Se a unidade é tão importante para o cristão, nada se opõe tanto à sua vocação como a falta de unidade. Peca-se contra a unidade sempre que se cede à tentação do individualismo, que ameaça continuamente e nos leva a fazer as coisas cada um por sua conta, a guiar-nos apenas pela nossa opinião, pelo interesse e prestígio pessoal, ignorando ou até desprezando os outros, as suas necessidades e os seus direitos» [C. Lubich, Palavra de vida de julho de 1985, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, Opere di Chiara Lubich 5, Città Nuova, Roma, 2017, p. 327]. 

       «Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados» (Ef 4,4)

         Na Guatemala, o diálogo entre cristãos das diversas Igrejas é muito ativo. Escreve-nos o Ramiro: «Com um grupo de pessoas de várias Igrejas, preparámos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. O programa incluía um festival artístico, preparado com os jovens, e várias celebrações nas diferentes igrejas. A Conferência Episcopal católica pediu-nos para continuar esta experiência, para preparar também um momento de partilha com um grupo de bispos católicos e pessoas de várias Igrejas, vindos de toda a América, para um encontro comemorativo dos 1700 anos do Concílio de Niceia. Através destas atividades, sentimos de modo muito forte a unidade entre nós, com os frutos que dela decorrem: fraternidade, alegria, paz».

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

 

Palavra de Vida

Dezembro de 2025

Letizia Magri e  equipa da Palavra de Vida  

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         Exilado na Babilónia, o povo de Israel tinha perdido tudo: a sua terra, o seu rei, o Templo e, por isso, a possibilidade de prestar culto ao seu Deus, Àquele que no passado o tinha feito sair do Egipto. 

Mas eis que a voz de um profeta faz um anúncio surpreendente: chegou a hora de regressar a casa. Uma vez mais, Deus agirá com poder e reconduzirá os israelitas para além do deserto, até Jerusalém. Desse acontecimento prodigioso serão testemunhas todos os povos da Terra: 

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         Também hoje os noticiários estão repletos de notícias alarmantes: pessoas que perdem o trabalho, a saúde, a segurança e a dignidade. Sobretudo jovens que têm o futuro em risco por causa da guerra ou da pobreza provocada por alterações climáticas nos seus países. Há povos sem terra, sem paz, sem liberdade. 

         Um cenário trágico, de dimensões planetárias, que nos faz ficar sem fôlego e obscurece o horizonte. Quem nos salvará da destruição de tudo aquilo que considerávamos ter alcançado? Parece não haver razões para a esperança. Contudo, o anúncio do profeta é também para nós: 

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         A sua palavra revela a ação de Deus na história pessoal e coletiva e convida a abrir os olhos para os sinais desse projeto de salvação. De facto, este já está presente: na paixão educativa de uma professora, na honestidade de um empresário, na retidão de uma administradora, na fidelidade de dois esposos, no abraço de uma criança, na ternura de um enfermeiro, na paciência de uma avó, na coragem de homens e mulheres que se opõem pacificamente à criminalidade, no acolhimento de uma comunidade. 

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         Aproxima-se o Natal. No sinal da inocência desarmada do Menino, podemos reconhecer, mais uma vez, a presença paciente e misericordiosa de Deus na história humana e dar testemunho dela com as nossas escolhas coerentes e contracorrente: «[…] A um mundo como o nosso – em que se enaltece a luta, a lei do mais forte, do mais esperto, a astúcia sem escrúpulos, onde tudo parece paralisado pelo materialismo e pelo egoísmo – a resposta que podemos dar é o amor ao próximo. É este o remédio que pode curar. […] É como uma onda de calor divino que irradia e se propaga, penetrando nos relacionamentos de pessoa a pessoa, entre grupo e grupo e transformando pouco a pouco a sociedade» [C. Lubich, Palavra de Vida de maio de 1985, em Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma, 2017, pp. 323-324]. 

         Como para o povo de Israel, também para nós, este é o momento de nos pormos a caminho, a ocasião propícia para dar um passo em frente, com decisão, ao encontro de todos os que – jovens ou idosos, pobres, migrantes, desempregados ou sem-abrigo, doentes ou na prisão – esperam um gesto de atenção e de proximidade, testemunho da presença humilde mas eficaz do amor de Deus no meio de nós. 

         Atualmente as fronteiras que é preciso ultrapassar para levar este anúncio de esperança são naturalmente as geográficas, que muitas vezes se tornam muros ou dolorosas linhas de guerra, mas há também as divisões culturais e existenciais. Além disso, nas comunidades digitais, frequentemente utilizadas pelos jovens, pode também ser dado um contributo eficaz para combater a agressividade, a solidão e a marginalização. 

         Como escreveu o poeta congolês Henri Boukoulou: «[…] Ó, divina esperança! Eis que no soluço desesperado do vento, se formam os primeiros versos do mais belo poema de amor. E amanhã, é a esperança!» [Cf. AA.VV. Poeti Africani Anti-Apartheid, I vol., Edizioni dell’Arco, Milano, 2003]. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

 

Palavra de Vida

Setembro de 2025

Patrizia Mazzola e equipa da Palavra de Vida

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

No Antigo Oriente, os pastores costumavam contar as ovelhas, no regresso da pastagem, dispostos a ir à procura de alguma que faltasse. Estavam prontos a enfrentar até o deserto e a noite, tudo para encontrar as ovelhas que se tivessem perdido.

Esta parábola é uma história de perda e encontro, que coloca em primeiro plano o amor do pastor. Ele apercebe-se que falta uma ovelha, procura-a, encontra-a e carrega-a aos ombros, porque a encontrou debilitada e assustada, talvez ferida e incapaz de seguir o pastor só por si mesma. É ele que a traz de volta para um lugar seguro e, finalmente, cheio de alegria, convida os seus vizinhos para festejarem juntos.

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

Podemos resumir os temas presentes nesta narração em três ações: perder-se, encontrar, festejar.

Perder-se. A boa notícia é que o Senhor vai à procura de quem se perde. Perdemo-nos muitas vezes nos vários desertos que atravessamos, nos quais somos forçados a viver ou nos quais nos refugiamos: os desertos do abandono, da marginalização, da pobreza, das incompreensões, da falta de unidade. O Pastor procura-nos também aí e, ainda que o possamos perder de vista, Ele encontra-nos sempre.

Encontrar. Procuremos imaginar a cena da fatigante procura feita pelo pastor no deserto. É uma imagem tocante pela sua força expressiva. Podemos compreender a alegria experimentada, tanto pelo pastor como pela ovelha. E este encontro renova na ovelha perdida a sensação de segurança, por já não estar em perigo. O “reencontrar”, portanto, é mesmo um ato de misericórdia divina.

Festejar. Ele chama os seus amigos para festejar com ele, porque quer partilhar a sua alegria, tal como acontece nas duas parábolas que se seguem a esta, a da moeda perdida e a do pai misericordioso [Cf. Lc 15,8 e 15,11]. Jesus quer fazer-nos compreender a importância de participar na alegria com todos e imunizar-nos contra a tentação de julgar os outros. Todos somos “encontrados”.

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

Esta Palavra de Vida é um convite à gratidão pela misericórdia que Deus tem pessoalmente por cada um de nós. O facto de nos regozijarmos, de nos alegrarmos juntos, apresenta-nos uma imagem da unidade, onde não existe contraposição entre “justos” e “pecadores”, mas onde cada um participa na alegria do outro.

Escreveu Chiara Lubich: «É um convite para compreender o coração de Deus, para acreditar no seu amor. Levados, como somos, a calcular e a medir, às vezes pensamos que também Deus tem por nós um amor que, a um certo ponto, se poderia cansar […] A lógica de Deus não é como a nossa. Deus espera-nos sempre: aliás, damos-Lhe uma imensa alegria todas as vezes que voltamos para Ele – ainda que se trate de um número infinito de vezes» [C. Lubich, Palavra de Vida de setembro de 1986, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, p. 369].

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

Por vezes, podemos ser nós esses pastores, esses guardiões uns dos outros que, com amor, vamos à procura dos que se afastaram de nós, da nossa amizade, da nossa comunidade. Temos que procurar os que se encontram marginalizados, os perdidos, os mais frágeis, que as provações da vida afastaram para as margens da nossa sociedade.

Conta-nos uma professora: «Alguns alunos frequentavam as aulas só de vez em quando. Durante as horas em que eu não tinha aulas, ia até ao mercado próximo da escola: esperava poder encontrá-los lá, porque sabia que trabalhavam ali para ganhar alguma coisa. Um dia, finalmente, vi-os. Eles ficaram admirados pelo facto de eu ter ido pessoalmente à procura deles e ficaram sensibilizados por lhes manifestar o quanto eram importantes para a comunidade escolar. Assim, começaram outra vez a vir regularmente à escola e foi, realmente, uma festa para todos».

terça-feira, 1 de julho de 2025


Palavra de Vida

Julho de 2025

Texto preparado por Letizia Magri 


«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

Martine ia numa carruagem do metro de uma grande cidade europeia. Todos os passageiros estavam concentrados nos seus telemóveis. Virtualmente estavam ligados, mas, de facto, estavam aprisionados no isolamento. Questionou-se: «Será que perdemos a capacidade de nos olharmos nos olhos?».

É uma experiência comum, sobretudo nas sociedades ricas de bens materiais, mas cada vez mais pobres em relacionamentos humanos. O Evangelho, no entanto, apresenta-nos sempre a sua proposta original, criativa, capaz de “fazer novas todas as coisas” [Cf. Ap 21,5].

No longo diálogo com o doutor da Lei que o questiona sobre o que é preciso fazer para ter como herança a vida eterna [2], Jesus responde com a famosa parábola do Bom Samaritano: um sacerdote e um levita – figuras de relevo na sociedade daquele tempo – veem um homem agredido por salteadores, caído na berma da estrada, mas passam adiante.

«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

É preciso ser capaz de não olhar apenas para os dons pessoais, mas também para as muitas potencialidades e a multiplicidade de visões e de opiniões que se apresentam diante de nós, naqueles que vivem ao nosso lado e com quem nos relacionamos, e até nas pessoas que encontramos por acaso. É importante, com todos, manter a autenticidade no coração e também ter a consciência dos limites do nosso ponto de vista.

Esta palavra de vida poderia ser um lema a adotar em todas as situações de diálogo e de confronto. Escutar o outro – não necessariamente para aceitar tudo, mas sabendo que é possível encontrar algo de bom naquilo que ele diz – favorece uma abertura do coração e do pensamento. É fazer o vazio dentro de nós, por amor, e ter assim a possibilidade de construir algo juntos.

«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

Ao doutor da Lei, que conhece bem o mandamento divino do amor ao próximo [Cf. Lc 10,25-37], Jesus propõe como modelo um estrangeiro, considerado cismático e inimigo. Ele viu o viajante ferido e encheu-se de compaixão, um sentimento que nasce de dentro, da profundidade do coração humano. Por isso, interrompe a sua viagem, aproxima-se e cuida dele.

Jesus sabe que cada pessoa humana está ferida pelo pecado e esta é precisamente a Sua missão: curar os corações com a misericórdia e o perdão gratuito de Deus, para que sejam capazes, por sua vez, de proximidade e partilha.

«[…] Para aprender a ser misericordiosos como o Pai, perfeitos como Ele, é preciso olhar para Jesus, revelação total do amor do Pai. […] O amor é o valor absoluto que dá sentido a tudo o resto […] que encontra a sua expressão mais elevada na misericórdia. É a Misericórdia que ajuda a ver sempre novas as pessoas com quem vivemos no dia a dia, na família, na escola, no trabalho, sem recordar os seus defeitos, os seus erros. Leva-nos a não julgar, mas a perdoar as ofensas que sofremos. E até a esquecê-las» [C. Lubich, Palavra de Vida de junho de 2002, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma, 2017, p.659]. 

«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

A resposta final e decisiva expressa-se com um convite claro: «Vai e faz tu também o mesmo» [Lc 10,37]. É isso que Jesus repete a quem aceita a sua Palavra: tornar-se próximos, tomando a iniciativa de “tocar” as feridas das pessoas que encontramos, no dia a dia, pelas estradas da vida.

Para viver a proximidade evangélica, antes de tudo, peçamos a Jesus que nos cure da cegueira dos preconceitos e da indiferença, que nos impede de ver para além de nós mesmos.

Depois, aprendamos com o Samaritano a capacidade da compaixão, que o levou a colocar em jogo a sua própria vida. Imitemos a sua prontidão para dar o primeiro passo em direção ao outro com a disponibilidade para o escutar, para fazer nossa a sua dor, livres dos juízos e do medo de “perder tempo”.

Foi a experiência de uma jovem coreana: «Procurei ajudar um adolescente que não era da minha cultura e que eu não conhecia bem. No entanto, apesar de não saber o que fazer nem como fazer, enchi-me de coragem e tentei ajudá-lo. Para minha surpresa, ao oferecer aquela ajuda, notei que me senti “curada” das minhas feridas interiores».

Esta Palavra oferece-nos a chave de ouro para atuar o humanismo cristão: torna-nos conscientes da nossa humanidade comum, em que se reflete a imagem de Deus, e ensina-nos a ir com coragem para além da mera “proximidade” física e cultural. Nesta perspetiva, é possível alargar as fronteiras do “nós” até ao horizonte do “todos” e redescobrir a base fundamental da vida social.

domingo, 1 de junho de 2025

 


Palavra de Vida

Junho de 2025

Silvano Malini e equipa da Palavra de Vida

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

Estamos num lugar solitário, nos arredores de Betsaida, na Galileia. Jesus está a falar do Reino de Deus a uma multidão numerosa. O Mestre tinha-se deslocado para aqui com os apóstolos para os fazer repousar, depois de uma longa missão naquela região, na qual tinham pregado a conversão “anunciando a Boa-Nova e realizando curas por toda a parte” [Lc 9,6]. Cansados, mas com o coração cheio, contavam o que tinham vivido.

As pessoas, porém, tendo-o sabido, dirigiram-se para lá. Jesus acolhe-as a todas: escuta, fala, cura. A multidão aumenta. A noite aproxima-se e a fome faz-se sentir. Os apóstolos preocupam-se e propõem ao Mestre uma solução lógica e realista: «Despede a multidão, para que, indo pelas aldeias e campos em redor, encontre alimento e onde pernoitar». Afinal de contas, Jesus já tinha feito muito… Mas Ele responde:

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

Ficam estupefactos. Está fora de questão: têm só cinco pães e dois peixes para alguns milhares de pessoas. Não é possível encontrar o necessário na pequena Betsaida, e não teriam dinheiro para o comprar.

Jesus quer abrir-lhes os olhos. As necessidades e os problemas das pessoas tocam-no e esforça-se por lhes dar uma solução. Realiza-a partindo da realidade e valorizando aquilo que têm. É verdade, aquilo que têm é pouco, mas chama-os a uma missão: serem instrumentos da misericórdia de Deus que pensa nos seus filhos. O Pai intervém, e, todavia, “precisa” deles.

O milagre “precisa” da nossa iniciativa e da nossa fé, que depois fará crescer. 

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

Portanto, à objeção dos apóstolos, Jesus responde assumindo a situação, mas pede-lhes que façam a própria parte. Mesmo se pequena, não a desdenha. Não resolve o problema por eles. O milagre acontece, mas requer a participação deles com tudo aquilo que têm e que puderam providenciar, colocado à disposição de Jesus para todos. Isto implica um certo sacrifício e confiança Nele.

O Mestre parte daquilo que nos acontece para nos ensinar a cuidar juntos uns dos outros. Diante das necessidades dos outros, não nos podemos desculpar (“não é da nossa conta”, “não posso fazer nada”, “que se arranjem, como todos fazemos…”). Na sociedade pensada por Deus, são felizes aqueles que dão de comer aos que têm fome, que vestem os pobres, que visitam quem se encontra em necessidade [Cf. Mt 25,35-40].

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

A narração deste episódio recorda a imagem do banquete descrito no livro de Isaías, oferecido pelo próprio Deus a todos os povos, quando Ele «enxugará as lágrimas de todas as faces» [Is 25,8]. Jesus manda que se sentem em grupos de cinquenta, como nas grandes ocasiões. Como Filho, comporta-se como o Pai, e isso realça a sua divindade.

Ele mesmo dará tudo, até se fazer alimento para nós, na Eucaristia, o novo banquete da partilha. 

Diante das muitas necessidades surgidas durante a pandemia de covid-19, a comunidade dos Focolares de Barcelona criou um grupo, através das redes sociais, no qual se partilhavam as necessidades e se metiam em comum bens e recursos. E é impressionante ver como circulam móveis, alimentos, medicamentos, eletrodomésticos… Porque «sozinhos podemos fazer pouco», dizem, «mas juntos podemos fazer muito». Ainda hoje o grupo “Fent família” ajuda a fazer com que, como nas primeiras comunidades cristãs, ninguém entre eles seja necessitado [Cf. At 4,34].

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Palavra de Vida

Fevereiro 2025

Patrizia Mazzola e equipa da Palavra de Vida

«Avaliai tudo, conservando o que for bom» (1Ts 5,21)

A palavra deste mês é retirada de uma série de recomendações finais que o apóstolo Paulo faz à comunidade dos Tessalonicenses: «Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias. Avaliai tudo, conservando o que for bom. Afastai-vos de toda a espécie de mal» [1Ts 5, 19-22]. Profecia e discernimento, diálogo e escuta. Estas são as indicações de Paulo à comunidade, que tinha iniciado pouco tempo antes o seu caminho de fé.

Entre os vários dons do Espírito, Paulo valorizava muito o da profecia [Cf. João Paulo II, Audiência Geral, 24.06.1992, n.7]. O profeta não é aquele que prevê o futuro, mas aquele que tem o dom de ver e compreender a história pessoal e coletiva do ponto de vista de Deus.

Mas todos os dons são orientados pelo dom maior, a caridade, o amor fraterno [Cf. 1Cor 13]. Agostinho de Hipona afirma que só a caridade permite fazer o discernimento da atitude a assumir perante as diferentes situações [Cf. Agostinho de Hipona, Ep. Jo. 7, 8].

«Avaliai tudo, conservando o que for bom» (1Ts 5,21)

É preciso ser capaz de não olhar apenas para os dons pessoais, mas também para as muitas potencialidades e a multiplicidade de visões e de opiniões que se apresentam diante de nós, naqueles que vivem ao nosso lado e com quem nos relacionamos, e até nas pessoas que encontramos por acaso. É importante, com todos, manter a autenticidade no coração e também ter a consciência dos limites do nosso ponto de vista.

Esta palavra de vida poderia ser um lema a adotar em todas as situações de diálogo e de confronto. Escutar o outro – não necessariamente para aceitar tudo, mas sabendo que é possível encontrar algo de bom naquilo que ele diz – favorece uma abertura do coração e do pensamento. É fazer o vazio dentro de nós, por amor, e ter assim a possibilidade de construir algo juntos.

«Avaliai tudo, conservando o que for bom» (1Ts 5,21)

Fr. Timothy Radcliffe, um dos teólogos presentes no Sínodo dos Bispos da Igreja Católica, afirmou que «a coisa mais corajosa que podemos fazer neste sínodo é ser sinceros entre nós em relação às nossas dúvidas e às nossas perguntas, aquelas para as quais não temos respostas claras. Tornar-nos-emos então mais próximos como companheiros de procura, mendicantes da verdade» [Fr. Timothy Radcliffe, Meditação n.º 3, Amizade, Sínodo dos Bispos, Sacrofano, 2.10.2023]. 

Numa conversação com alguns focolarinos, Margaret Karram comentou assim esta reflexão: «Pensando nisto, dei-me conta que muitas vezes não tive a coragem de dizer realmente aquilo que pensava: talvez pelo receio de não ser compreendida, talvez para não dizer algo completamente diferente da opinião da maioria. Compreendi que ser “mendicantes da verdade” significa ter aquela atitude de proximidade, uns para com os outros, pela qual todos queremos aquilo que Deus quer, todos juntos procuramos o bem» [Margaret Karram, Presidente do Movimento dos Focolares, dálogo com os focolarinos, Rocca di Papa, 3.02.2024].

«Avaliai tudo, conservando o que for bom» (1Ts 5,21)

É esta a experiência de Antía, que participa no grupo de artes performativas Mosaico, nascido na Espanha, em 2017, como Gen Rosso Local Project. Este grupo é composto por jovens espanhóis que, através da sua arte e Workshops, partilham a sua experiência de fraternidade. 

Antía conta-nos: «É a ligação com os meus valores: um mundo fraterno, onde cada um (mesmo os mais jovens, inexperientes, vulneráveis…) dá o seu próprio contributo para este projeto. Mosaico faz-me acreditar que um mundo mais unido não é uma utopia, apesar das dificuldades e do trabalho duro que comporta. Cresci neste trabalho em grupo, com um diálogo que, por vezes, pode parecer demasiado frontal e que obriga muitas vezes a renunciar às minhas ideias que eu considerava as melhores. E o resultado é que “o bem” é construído pedaço a pedaço juntos, por todos nós» [Mosaico GRLP faz parte do projeto Fortes Sem Violência, que leva a novas cidades workshops multidisciplinares com os jovens durante três dias, procurando transmitir os valores da não-violência, da paz e do diálogo através da arte].

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

 

Palavra de Vida

Janeiro 2025

Silvano Malini e equipa da Palavra de Vida

«Acreditas nisto?» (Jo 11, 26)

Jesus estava a chegar a Betânia, onde Lázaro tinha morrido há quatro dias. Quando soube da Sua vinda, a irmã de Lázaro, Marta, correu esperançosa ao Seu encontro. Jesus gostava muito dela, e da sua irmã Maria e de Lázaro, como assinala o Evangelho [Jo 11,5]. Apesar do sofrimento, Marta manifestou ao Senhor a sua confiança n’Ele, convicta de que, se Ele estivesse ali antes da morte do irmão, este ainda estaria vivo. Mas também que agora, qualquer pedido que Jesus fizesse a Deus, seria atendido. «O teu irmão ressuscitará» (Jo 11,23), afirmou então Jesus.

«Acreditas nisto?» (Jo 11, 26)

Jesus esclareceu que se referia ao regresso de Lázaro à vida física, aqui e agora, e não apenas à vida que espera o crente depois da morte. Depois pediu a Marta a adesão da fé, não só para realizar um dos seus milagres – a que o evangelista João chama “sinais” – mas para lhe dar, como a todos os crentes, uma vida nova e a ressurreição. «Eu sou a ressurreição e a vida» (Jo 11,25), afirmou Jesus. A fé que Jesus pede é um relacionamento pessoal com Ele, uma adesão ativa e dinâmica. Acreditar não é como aceitar um contrato – que se assina uma vez e fica para sempre –, mas é um facto que transforma e impregna a vida quotidiana.

«Acreditas nisto?» (Jo 11, 26)

Jesus convida-nos a viver uma vida nova, aqui e agora. Convida-nos a experimentá-la cada dia, sabendo que, como descobrimos no Natal, Ele próprio no-la trouxe, tomando a iniciativa de nos procurar e de vir habitar no meio de nós.

Como responder à Sua pergunta? Olhemos para Marta, a irmã de Lázaro.

Em diálogo com Jesus, desponta nela uma profissão de fé plena n’Ele. O original grego exprime-o com uma força ainda maior. Aquele “eu creio” por ela pronunciado significa “fiquei a acreditar”, “creio firmemente” que «Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo» [Jo 11, 27], com todas as consequências. É uma convicção amadurecida no tempo, posta à prova nas diversas circunstâncias que enfrentou na vida.

O Senhor faz-me a mesma pergunta a mim. Também a mim pede uma grande confiança n’Ele, a adesão ao Seu estilo de vida alicerçado no amor generoso e concreto para com todos. A perseverança amadurecerá a minha fé, que se reforçará ao verificar, dia após dia, a veracidade das palavras de Jesus colocadas em prática, e que não deixará de se expressar no meu agir quotidiano para com todos. Entretanto, podemos fazer nosso o pedido dos apóstolos a Jesus: «Aumenta a nossa fé» (Lc 17, 6).

«Acreditas nisto?» (Jo 11, 26)

«Uma das minhas filhas tinha perdido o trabalho, assim como todos os seus colegas, porque o governo tinha fechado a agência pública onde trabalhavam», conta a Patrícia, da América do Sul. «Como forma de protesto, organizaram um acampamento diante da sede. Eu procurava apoiá-los participando em algumas das suas atividades, levando-lhes comida ou simplesmente ficando a falar com eles.

Na Quinta-Feira Santa, um grupo de sacerdotes que os acompanhava decidiu fazer ali uma celebração onde se ofereciam também espaços de escuta, leu-se o Evangelho e realizou-se o gesto do lava-pés, recordando o que Jesus fez. A maior parte dos presentes não eram pessoas religiosas. Contudo, foi um momento de profunda união, de fraternidade e de esperança. Sentiram-se abraçados e, emocionados, agradeceram àqueles sacerdotes que os acompanhavam na incerteza e no sofrimento».

Esta palavra de Jesus foi escolhida como lema para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2025. Rezemos então e façamos de tudo para que a nossa fé comum seja o motor da procura da fraternidade com todos: é a proposta e o desejo de Deus para a humanidade, mas requer a nossa adesão. A oração e a ação serão eficazes se nascerem da nossa confiança em Deus e do nosso agir em conformidade.