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sábado, 1 de agosto de 2026

 Palavra de Vida

Agosto de 2026

Patrizia Mazzola e Equipa da Palavra de Vida

«A minha alma glorifica o Senhor» (Lc 1, 46)

No primeiro capítulo do seu Evangelho, Lucas oferece-nos a única página do Novo Testamento em que as protagonistas são duas mulheres: Maria e Isabel.

Isabel vivia numa aldeia próxima de Jerusalém, a cerca de 150 km de Nazaré. E Maria, logo após receber o anúncio do anjo de que seria a mãe de Jesus (Lc 1,26-38), enfrenta essa longa viagem para a visitar. Não conhecemos os pormenores do percurso. Sabemos apenas que se dirigiu apressadamente para a montanha. Mas por que razão ia até lá?

Maria foi partilhar a sua alegria com alguém que, como ela, tinha recebido de Deus a graça de esperar um filho, e também para estar ao seu lado e ajudá-la durante os últimos meses da gravidez. É a história de duas mulheres, de duas maternidades impossíveis. Quem melhor do que Isabel poderia compreendê-la e partilhar esta experiência? Deste encontro brota o cântico do Magnificat.

«A minha alma glorifica o Senhor» (Lc 1, 46)

«As suas palavras são a expressão de um grande amor e de uma alegria intensíssima. Explicam por que razão a sua alma e a sua vida se elevam no espírito. Maria não diz: “Eu glorifico Deus”, mas sim “a minha alma…”. Era como se quisesse dizer: toda a minha vida e todos os meus sentidos são arrebatados pelo amor de Deus […]» [Martinho Lutero, Comentário ao Magnificat, 1520], escreve Martinho Lutero no seu comentário ao Magnificat.

O verbo «glorificar», engrandecer, magnificar revela um sentimento de alegria, despertado pela descoberta de que Deus é maior do que imaginávamos. A esta alegria junta-se uma profunda humildade e um sentido profundo de gratidão e reconhecimento.

Como sublinha Ermes Ronchi, «o Magnificat é o evangelho de Maria, a sua boa notícia que alcança todas as gerações» [Ermes Ronchi, Magnificat, una finestra aperta sul futuro, Avvenire, 12 agosto 2021]. Dez vezes a jovem de Nazaré refere ações que têm Deus como sujeito, como uma espécie de novo decálogo, de dez novos mandamentos que invertem as lógicas do mundo.

Surge espontaneamente a pergunta: será que nós conservámos o sentido de admiração e maravilha, na nossa vida quotidiana e na nossa oração, diante daquilo que Deus realizou e continua a realizar? Sem abertura à novidade e às suas surpresas, sem capacidade de nos maravilharmos, a fé torna-se uma oração cansada, que gradualmente se apaga e se transforma num hábito social [Cfr. Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, Roma, 4 julho de 2021].

«A minha alma glorifica o Senhor» (Lc 1, 46)

O cântico de Maria não é simplesmente uma oração intimista de louvor, mas um louvor profético, caracterizado por uma constante referência às passagens da Escritura [Cfr. Gérard Rossé, Il Vangelo di Luca, Città Nuova, 1992, p.69], que aponta a direção da História segundo o coração de Deus. Louvá-Lo significa tomar o partido dos pequenos, acreditar que o mundo pode e deve mudar.

As palavras deste hino convidam-nos a compreender a ação salvadora de Deus na nossa história pessoal e comunitária, da própria vivência pessoal à universal, do momento presente até aos novos céus e à nova terra que a revolução social do Evangelho inaugura.

«A minha alma glorifica o Senhor» (Lc 1, 46)

Estas palavras convidam-nos também a fazer da nossa vida um louvor vivo, a reconhecer todos os dias as «grandes coisas», a unir a nossa voz à de Maria para proclamar que Deus é fiel, que a sua misericórdia se estende de geração em geração e que o seu reino de justiça e amor já se está a realizar entre nós.

Chiara Lubich tinha compreendido esta dimensão revolucionária do cântico de Maria quando escreveu aos jovens: «Leiam o Magnificat e nele encontrarão a primeira e mais poderosa página da doutrina social cristã. Quem, e quando, a realizará plenamente?» [Chiara Lubich, Detti Gen, Città Nuova, Roma 19744, p.57].

A pergunta permanece em aberto e interpela-nos. A ação de Deus não deve permanecer confinada à intimidade do coração, mas precisa de se manifestar nos relacionamentos, na vida em comum e no roteiro das gerações vindouras.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Palavra de Vida

Julho 2026

Letizia Magri  e equipa da Palavra de Vida

 

«E aquele que recebeu a semente em boa terra

é o que ouve a Palavra e a compreende:

esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta»

(Mt 13,23)

Depois de ter falado em parábolas a uma grande multidão, à beira do lago de Tiberíades, Jesus dirige-se aos discípulos e explica-lhes o significado profundo das suas palavras.

A protagonista da nossa narrativa é a Palavra de Deus, comparada a uma semente pequena e frágil. As pedras, os espinhos e os pássaros podem impedir que ela germine, que crie raízes e produza espigas maduras, mas o sábio semeador conhece a sua surpreendente vitalidade.

Através destas imagens, Jesus revela o relacionamento entre o ser humano e a Palavra que Deus oferece com abundância. Há quem a acolha e há quem, por vários motivos, a deixe cair sem produzir fruto. De facto, no coração humano, a superficialidade e as excessivas preocupações materiais ameaçam o milagre da vida sobrenatural, que o próprio Deus deseja acender nas suas criaturas.

Também nós, como os discípulos, somos convidados por Jesus a entrar no humilde mistério do amor de Deus e, ao mesmo tempo, somos interpelados pessoalmente para uma decisão: que tipo de “terra” queremos ser?

«E aquele que recebeu a semente em boa terra

é o que ouve a Palavra e a compreende:

esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta»

(Mt 13,23)

Ouvir e compreender: está aqui o segredo para fazer de nós uma terra acolhedora, onde a semente da Palavra pode manifestar a sua força e produzir bons frutos.

Quão preciosa é a disponibilidade para escutar: é o espaço espiritual onde se dá lugar à vida de Deus, que sempre nos precede com a sua misericórdia, com a paciência do trabalhador que conhece e respeita os tempos da maturação.

Como escreveu Chiara Lubich, as palavras de Deus «iluminam interiormente não apenas o pensamento, mas todo o nosso ser, porque são luz, amor e vida. Dão paz – aquela que Jesus chama sua: “a minha paz” – mesmo nos momentos de desorientação e angústia. Dão alegria plena até no meio do sofrimento que por vezes oprime a alma. Dão força sobretudo quando surge o desânimo ou nos falta a coragem. Tornam-nos livres porque abrem o caminho da Verdade. […] Também em nós deve nascer um amor apaixonado pela Palavra de Deus: escutamo-la com atenção quando é proclamada nas igrejas, lemo-la, estudamo-la, meditamo-la… Mas, acima de tudo, somos chamados a vivê-la. […] Vivendo uma palavra de Jesus, vivemos todo o Evangelho, porque em cada uma das suas palavras Ele dá-se totalmente, Ele próprio vem viver em nós […] e substitui a nossa maneira de pensar, de querer e de agir em todas as circunstâncias da vida» [C. Lubich, Palavra de Vida de março de 2003, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma, 2017, pp. 684-685].

«E aquele que recebeu a semente em boa terra

é o que ouve a Palavra e a compreende:

esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta»

(Mt 13,23)

Wambil, do México, conta-nos: «Houve um tempo em que me sentia aprisionado num buraco profundo. Estava numa relação violenta e tentava fugir e resolver tudo com as minhas próprias forças. Influenciado pelas redes sociais e pelo ruído exterior, muitas vezes corria atrás de coisas que não eram guiadas por Deus. Apesar de todos os meus esforços, continuava a sentir-me vazio e sem rumo. Sabia que o amor é uma linguagem universal. Quando comecei a fazer voluntariado, encontrei uma realização que só podia vir de Deus. Com o tempo, descobri um lugar onde podia ouvir a Sua palavra e crescer na relação com Ele. Estou profundamente grato.»

Mesmo quando nos sentimos terra árida e pedregosa, é a própria Palavra que se torna eficaz, como revela o profeta Isaías: «Assim como a chuva e a neve, que descem do céu, não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, (…) assim a palavra, que sai da minha boca, não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão.» (Is 55,10-11).

Apoiados por esta esperança, num tempo dominado por medos e tensões, cultivemos também a confiança nas mulheres e nos homens com quem partilhamos a vida. Acreditemos na sua capacidade de dar bons frutos, criando ocasiões de escuta e diálogo, para caminharmos juntos rumo ao horizonte da fraternidade.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Palavra de Vida

Junho de 2026

Augusto Parody Reyes  e equipa da Palavra de Vida 

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

Neste capítulo do Evangelho de Mateus, os apóstolos tinham sido escolhidos por Jesus, que os chamou pelo nome, conferindo-lhes poderes especiais para expulsar os espíritos impuros e o dom de curar toda a espécie de doenças e enfermidades. Jesus dá-lhes instruções sobre onde e como realizar a sua missão inicial. A mensagem que devem anunciar é clara: «Está perto o reino dos Céus» (Mt 10,7).

A indicação de proclamar “pelo caminho” a mensagem que lhes foi confiada, sublinha, por um lado, que o verdadeiro discípulo é, antes de mais, um pregador da proximidade, e, por outro lado, que o próprio modo de caminharem juntos deve ser anúncio. De facto, no Evangelho de João, a seguir à entrega do mandamento novo, Jesus afirma: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35).

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

O “reino dos Céus” é o coração do anúncio de Jesus. A expressão similar “reino de Deus” é usada no Antigo Testamento para indicar o domínio, o governo e a ação salvífica de Deus na história humana. Ele é o Senhor do mundo e sobretudo do povo de Israel, na expetativa de um descendente do rei David que restabelecerá o papel de Israel no meio dos povos. No Novo Testamento, Jesus é apresentado como o descendente de David e, portanto, rei. Diversamente dos reinos do mundo, o “reino dos Céus” é um reino de paz e de justiça, em que se cuida dos pobres, em que vigoram o perdão e a reconciliação e que levará vida e luz a todas as nações. Trata-se de um reino que já começou no mundo e no coração das pessoas, mas que verá a sua realização completa no regresso de Jesus.

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

Jesus anuncia que o reino está temporalmente “perto”, iminente. Pelas parábolas, como a do grão de mostarda e a do fermento que leveda toda a massa, compreende-se que ele atua de modo misterioso e humilde, mas tenaz, no decurso do tempo. “Perto” entende-se também no sentido geográfico. Quando os discípulos, que levam a presença do espírito de Jesus, se aproximam caminhando, aproxima-se o reino de Deus. Também no Evangelho de Marcos, quando Jesus diz ao escriba «Não estás longe do Reino de Deus» (Mc 12,34), é provável que quisesse dizer não apenas “Começaste a entender”, mas também “Não estás longe de mim”.

«Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. (…) Recebestes de graça, dai de graça»  (Mt 10,7-8)

“De graça” traduz um termo que no original grego significa “como um presente”. Isto torna evidente que tudo o que os apóstolos receberam não lhes foi dado porque o mereciam. A fonte é a generosidade de Deus e o facto que foram escolhidos para uma missão específica.

Escreveu Chiara Lubich: «O reino de Deus é para ser acolhido. É um dom que Deus te faz. De facto, não há nenhum esforço humano, nenhuma tentativa ascética, nenhum estudo ou investigação intelectual, que te levem a entrar no reino de Deus. É o próprio Deus que vem ao teu encontro, que se revela com a Sua luz ou te toca com a sua graça. E não há nenhum mérito de que te possas vangloriar ou sobre o qual te possas apoiar para ter direito a um tal dom de Deus. O reino de Deus é-te oferecido gratuitamente» (Cfr. C. Lubich, Parole di Vita, a/c di Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, pp. 152-153). Neste acolhimento somos chamados, também hoje, a continuar a missão confiada por Jesus aos apóstolos, a proclamar, com a palavra e com os factos, a proximidade do reino, a anunciar juntos, a todos os seres humanos, uma mensagem de esperança: Deus ama imensamente este nosso mundo tão conturbado e incerto, Deus ama-nos a todos imensamente.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Palavra de Vida

Maio de 2026

Claudio Cianfaglioni e equipa da Palavra de Vida 

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo»  (Jo 20,21-22)

Depois de ter aparecido a Maria de Magdala na manhã de Páscoa, na tarde do mesmo dia o Ressuscitado tornou-se presente, pela primeira vez, no meio dos seus discípulos. A reação imediata deles foi a alegria, reforçada pela paz, a verdadeira paz que só Ele pode dar (Cf. Jo 14,27): «A paz esteja convosco» (v. 21). Alegria e paz são os frutos do Espírito («Por seu lado, é este o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência…» (Gl 5,22). Na verdade Jesus diz-lhes em seguida: «Recebei o Espírito Santo» (v. 22).

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo»  (Jo 20,21-22)

O Espírito Santo não só habilita os discípulos para a mesma missão de Jesus, dada pelo Pai, mas “recria-os” como nova humanidade. O gesto do Ressuscitado, que soprou sobre eles, é o mesmo que o Criador fez nas narinas do homem formado do pó da terra (Cf. Gn 2, 7). Assim como a Criação é obra contínua do amor do Pai que sustém o universo inteiro, também a nova Criação realizada pelo Ressuscitado, no Espírito Santo, sustém continuamente a humanidade em caminho para o Reino.

A Palavra de Vida deste mês recorda-nos que, na nossa existência, temos uma grande possibilidade: tornarmo-nos “outros Jesus”. Isso é verdade para cada um de nós individualmente, mas ainda mais comunitariamente. Jesus fala aos seus discípulos no plural. De facto, só juntos, cada membro com a sua especificidade, podemos “reproduzir” o Corpo Místico de Jesus.

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo»  (Jo 20,21-22)

Enquanto filhos no Filho, temos, por isso, a mesma vocação de Jesus: saídos do seio do Pai, somos chamados a voltar para Ele, repetindo no mundo os seus gestos e as suas palavras, guiados pela graça do Espírito Santo. Se nos abrimos a este dom, também nós podemos afirmar com Paulo: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gl 2, 20).

Esta Palavra, portanto, convida-nos a aprofundar o nosso relacionamento com o Espírito Santo, quer seja na oração quer na vida de cada dia, “escutando a Sua voz”, e recordando que: «Sem o Espírito, Deus está longe, Cristo permanece no passado, o Evangelho é letra morta, a Igreja é uma simples organização, a missão reduz-se a propaganda. Mas, com o Espírito Santo, o cosmos é enobrecido pela geração do Reino, Cristo Ressuscitado faz-se presente, o Evangelho torna-se força de vida, a Igreja realiza a comunhão trinitária, a missão é um Pentecostes» (Inácio, Metropolita de Laodiceia, Assembleia-Geral do Conselho Ecuménico das Igrejas, 5 de julho de 1968, citado pelo Papa Francisco na Homilia da solenidade de Pentecostes, 31 de maio de 2020).

«Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo»  (Jo 20,21-22)

Andrea era um adolescente em plena crise existencial: as dúvidas sobre o sentido da vida, o medo do futuro, as fragilidades que experimentava pareciam-lhe montanhas intransponíveis e, por vezes, estava sem coragem e infeliz. Alguém lhe sugeriu que falasse com Chiara Lubich. Pouco antes de a encontrar, Andrea ouviu Chiara pronunciar em voz baixa: «Espírito Santo» – e compreendeu que Chiara estava a rezar.

Durante o colóquio sentiu-se profundamente compreendido, escutado e acolhido tal como era. E reencontrou a paz: não porque os seus problemas tivessem desaparecido de repente, mas porque agora tinha alguém com quem os partilhar.

«De Chiara não recebi apenas apoio concreto – confidenciaria anos mais tarde – mas aprendi também um estilo de vida: estar ao lado de quem sofre, com delicadeza e compreensão, sem julgar, tal como faria Jesus».

Isto só o Espírito Santo pode realizar, se O acolhermos e O deixarmos atuar em nós.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

 

Palavra de Vida

Janeiro de 2026

Patrizia Mazzola e equipa da Palavra de Vida 

       «Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados» (Ef 4,4)

         Na Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos somos convidados a concentrar a nossa atenção num tema específico, que é mencionado na Carta de S. Paulo aos Efésios. Nas chamadas “cartas da prisão”, ele exorta os seus destinatários a dar testemunho credível da sua fé através da unidade.

         Ela está assente numa única fé, num só espírito, numa só esperança, e só através dela se pode dar testemunho de Cristo como “corpo”.

       «Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados» (Ef 4,4)

         Paulo convida-nos a ter esperança. O que é a esperança e porque somos chamados a vivê-la? É um rebento, uma dádiva e uma tarefa que temos o dever de proteger, de cultivar e de fazer frutificar para o bem de todos. «A esperança cristã coloca-nos naquela estreita linha cumeeira, naquela fronteira onde a nossa vocação exige a decisão, em cada dia e em cada hora, de sermos fiéis à fidelidade de Deus por nós» [Madeleine Delbrêl, considerada por muitos uma das personalidades espirituais mais importantes do século XX. https://www.pasomv.it/files/bocc/madalein_del_brel_noi_spes.pdf.].

         A nossa vocação, o chamamento para os cristãos não é um assunto apenas entre cada um e Deus, mas é uma “convocatória”, é sermos chamados juntos, é a unidade entre todos os que se comprometem a viver o Evangelho. Nos discursos e nos escritos de Chiara Lubich encontramos frequentes e explícitas referências à unidade, ponto característico da sua espiritualidade: ela é fruto da presença de Jesus entre nós. E esta presença é fonte de profunda felicidade.

         «Se a unidade é tão importante para o cristão, nada se opõe tanto à sua vocação como a falta de unidade. Peca-se contra a unidade sempre que se cede à tentação do individualismo, que ameaça continuamente e nos leva a fazer as coisas cada um por sua conta, a guiar-nos apenas pela nossa opinião, pelo interesse e prestígio pessoal, ignorando ou até desprezando os outros, as suas necessidades e os seus direitos» [C. Lubich, Palavra de vida de julho de 1985, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, Opere di Chiara Lubich 5, Città Nuova, Roma, 2017, p. 327]

       «Há um só Corpo e um só Espírito, como há uma só esperança na vida a que fostes chamados» (Ef 4,4)

         Na Guatemala, o diálogo entre cristãos das diversas Igrejas é muito ativo. Escreve-nos o Ramiro: «Com um grupo de pessoas de várias Igrejas, preparámos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. O programa incluía um festival artístico, preparado com os jovens, e várias celebrações nas diferentes igrejas. A Conferência Episcopal católica pediu-nos para continuar esta experiência, para preparar também um momento de partilha com um grupo de bispos católicos e pessoas de várias Igrejas, vindos de toda a América, para um encontro comemorativo dos 1700 anos do Concílio de Niceia. Através destas atividades, sentimos de modo muito forte a unidade entre nós, com os frutos que dela decorrem: fraternidade, alegria, paz».

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

 

Palavra de Vida

Dezembro de 2025

Letizia Magri e  equipa da Palavra de Vida  

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         Exilado na Babilónia, o povo de Israel tinha perdido tudo: a sua terra, o seu rei, o Templo e, por isso, a possibilidade de prestar culto ao seu Deus, Àquele que no passado o tinha feito sair do Egipto. 

Mas eis que a voz de um profeta faz um anúncio surpreendente: chegou a hora de regressar a casa. Uma vez mais, Deus agirá com poder e reconduzirá os israelitas para além do deserto, até Jerusalém. Desse acontecimento prodigioso serão testemunhas todos os povos da Terra: 

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         Também hoje os noticiários estão repletos de notícias alarmantes: pessoas que perdem o trabalho, a saúde, a segurança e a dignidade. Sobretudo jovens que têm o futuro em risco por causa da guerra ou da pobreza provocada por alterações climáticas nos seus países. Há povos sem terra, sem paz, sem liberdade. 

         Um cenário trágico, de dimensões planetárias, que nos faz ficar sem fôlego e obscurece o horizonte. Quem nos salvará da destruição de tudo aquilo que considerávamos ter alcançado? Parece não haver razões para a esperança. Contudo, o anúncio do profeta é também para nós: 

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         A sua palavra revela a ação de Deus na história pessoal e coletiva e convida a abrir os olhos para os sinais desse projeto de salvação. De facto, este já está presente: na paixão educativa de uma professora, na honestidade de um empresário, na retidão de uma administradora, na fidelidade de dois esposos, no abraço de uma criança, na ternura de um enfermeiro, na paciência de uma avó, na coragem de homens e mulheres que se opõem pacificamente à criminalidade, no acolhimento de uma comunidade. 

            «Todos os confins da Terra verão a salvação do nosso Deus.» (Is 52, 10)

         Aproxima-se o Natal. No sinal da inocência desarmada do Menino, podemos reconhecer, mais uma vez, a presença paciente e misericordiosa de Deus na história humana e dar testemunho dela com as nossas escolhas coerentes e contracorrente: «[…] A um mundo como o nosso – em que se enaltece a luta, a lei do mais forte, do mais esperto, a astúcia sem escrúpulos, onde tudo parece paralisado pelo materialismo e pelo egoísmo – a resposta que podemos dar é o amor ao próximo. É este o remédio que pode curar. […] É como uma onda de calor divino que irradia e se propaga, penetrando nos relacionamentos de pessoa a pessoa, entre grupo e grupo e transformando pouco a pouco a sociedade» [C. Lubich, Palavra de Vida de maio de 1985, em Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma, 2017, pp. 323-324]

         Como para o povo de Israel, também para nós, este é o momento de nos pormos a caminho, a ocasião propícia para dar um passo em frente, com decisão, ao encontro de todos os que – jovens ou idosos, pobres, migrantes, desempregados ou sem-abrigo, doentes ou na prisão – esperam um gesto de atenção e de proximidade, testemunho da presença humilde mas eficaz do amor de Deus no meio de nós. 

         Atualmente as fronteiras que é preciso ultrapassar para levar este anúncio de esperança são naturalmente as geográficas, que muitas vezes se tornam muros ou dolorosas linhas de guerra, mas há também as divisões culturais e existenciais. Além disso, nas comunidades digitais, frequentemente utilizadas pelos jovens, pode também ser dado um contributo eficaz para combater a agressividade, a solidão e a marginalização. 

         Como escreveu o poeta congolês Henri Boukoulou: «[…] Ó, divina esperança! Eis que no soluço desesperado do vento, se formam os primeiros versos do mais belo poema de amor. E amanhã, é a esperança!» [Cf. AA.VV. Poeti Africani Anti-Apartheid, I vol., Edizioni dell’Arco, Milano, 2003]

sábado, 1 de novembro de 2025

 

Palavra de Vida

Novembro de 2025

Augusto Parody Reyes e equipa da Palavra de Vida


«Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9)

Um observatório de investigação, criado por três universidades italianas, revelou recentemente que durante um ano circularam mais de um milhão de mensagens de ódio na internet. Tornam-se cada vez mais violentas, em particular contra os estrangeiros, contra os judeus, e sobretudo contra as mulheres.

É evidente que não podemos generalizar, mas todos nos deparamos – na família, no trabalho, no âmbito do desporto, etc. – com atitudes conflituosas, ofensivas e antagónicas, que dividem e comprometem a convivência social. Além disso, no mundo inteiro, estão atualmente em curso 56 conflitos armados, o número mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial, com um grande número de vítimas civis.

Neste contexto, as palavras de Jesus ecoam ainda mais provocatórias, verdadeiras e fortes:

«Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9)

«Cada povo, cada pessoa sente um anseio profundo pela paz, pela concórdia, pela unidade. Não obstante, apesar dos esforços e da boa vontade, depois de milénios de história, encontramo-nos incapazes de alcançar uma paz estável e duradoura. Jesus veio trazer-nos a paz, uma paz – diz-nos – que não é como aquela que “o mundo dá” [Cf. Jo 14, 27] porque não é apenas ausência de guerra, de litígios, de divisões, de traumas. A “sua” paz é também isso, mas é muito mais: é plenitude de vida e de alegria, é salvação integral da pessoa, é liberdade, é justiça e fraternidade no amor entre todos os povos» [C. Lubich, Palavra de Vida de janeiro de 2004, in Parole di vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma, 2017, p. 709].

A palavra de vida deste mês é a sétima das bem-aventuranças, que constituem o início do Sermão da Montanha (Mt5-7). Jesus, que as encarna todas, dirige-se aos seus discípulos para os instruir. Note-se que as oito bem-aventuranças estão formuladas no plural. Por isso, podemos deduzir que a ênfase não é dada a um comportamento individual ou a virtudes pessoais, mas a uma ética coletiva que se concretiza em grupo.

«Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9)

Quem são os que promovem a paz? «A sétima bem-aventurança é a mais ativa, explicitamente operativa. A expressão verbal é análoga àquela utilizada para a criação no primeiro versículo da Bíblia, e indica iniciativa e laboriosidade. O amor, por natureza, é criativo e procura a reconciliação, custe o que custar. São chamados filhos de Deus aqueles que aprenderam a arte da paz e que a praticam, que sabem que não há reconciliação sem o dom da própria vida, e sabem que a paz deve ser procurada sempre e de todas as formas. […] Esta não é uma obra autónoma, fruto das próprias capacidades. É manifestação da graça recebida de Cristo, que é a nossa paz, que nos fez filhos de Deus» [Papa Francisco, Audiência Geral. Catequeses sobre as Bem-aventuranças, 8. Quarta-feira, 15 de abril de 2020].

«Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5,9)

Como viver então esta palavra? Em primeiro lugar, difundindo o amor verdadeiro por toda a parte. Depois intervindo quando, ao nosso redor, a paz estiver ameaçada. Por vezes, basta escutar com amor, até ao fim, as partes em litígio para vislumbrar uma saída.

Além disso, não descansaremos enquanto os relacionamentos cortados, muitas vezes por uma coisa de nada, não estiverem restabelecidos. Talvez possamos dar vida – na instituição, associação ou paróquia de que fazemos parte – a iniciativas específicas, com a finalidade de fomentar uma maior consciência da necessidade da paz. Há no mundo um vasto conjunto de propostas, grandes ou pequenas, que atuam com este objetivo, promovendo marchas, concertos, congressos. O próprio voluntariado põe em movimento uma grande corrente de generosidade, que constrói a paz.

Há também percursos educativos para a paz, como o «Living Peace» [http://livingpeaceinternational.org]. Atualmente são mais de 2600 as escolas e grupos que aderem a este projeto e mais de dois milhões de crianças, jovens e adultos envolvidos nas suas iniciativas, nos cinco continentes. Entre estas iniciativas está a de lançar o «Dado da Paz» – que se inspira no dado da arte de amar de Chiara Lubich [C. Lubich, A arte de amar, Cidade Nova, Abrigada 2007] – que tem escritas, em cada uma das suas faces, frases que ajudam a construir relacionamentos de paz. Outra iniciativa, presente em todo o mundo, é o «Time out»: às 12:00 horas de cada dia, faz-se um momento de silêncio, de reflexão ou de oração pela paz.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

 

Palavra de Vida

Setembro de 2025

Patrizia Mazzola e equipa da Palavra de Vida

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

No Antigo Oriente, os pastores costumavam contar as ovelhas, no regresso da pastagem, dispostos a ir à procura de alguma que faltasse. Estavam prontos a enfrentar até o deserto e a noite, tudo para encontrar as ovelhas que se tivessem perdido.

Esta parábola é uma história de perda e encontro, que coloca em primeiro plano o amor do pastor. Ele apercebe-se que falta uma ovelha, procura-a, encontra-a e carrega-a aos ombros, porque a encontrou debilitada e assustada, talvez ferida e incapaz de seguir o pastor só por si mesma. É ele que a traz de volta para um lugar seguro e, finalmente, cheio de alegria, convida os seus vizinhos para festejarem juntos.

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

Podemos resumir os temas presentes nesta narração em três ações: perder-se, encontrar, festejar.

Perder-se. A boa notícia é que o Senhor vai à procura de quem se perde. Perdemo-nos muitas vezes nos vários desertos que atravessamos, nos quais somos forçados a viver ou nos quais nos refugiamos: os desertos do abandono, da marginalização, da pobreza, das incompreensões, da falta de unidade. O Pastor procura-nos também aí e, ainda que o possamos perder de vista, Ele encontra-nos sempre.

Encontrar. Procuremos imaginar a cena da fatigante procura feita pelo pastor no deserto. É uma imagem tocante pela sua força expressiva. Podemos compreender a alegria experimentada, tanto pelo pastor como pela ovelha. E este encontro renova na ovelha perdida a sensação de segurança, por já não estar em perigo. O “reencontrar”, portanto, é mesmo um ato de misericórdia divina.

Festejar. Ele chama os seus amigos para festejar com ele, porque quer partilhar a sua alegria, tal como acontece nas duas parábolas que se seguem a esta, a da moeda perdida e a do pai misericordioso [Cf. Lc 15,8 e 15,11]. Jesus quer fazer-nos compreender a importância de participar na alegria com todos e imunizar-nos contra a tentação de julgar os outros. Todos somos “encontrados”.

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

Esta Palavra de Vida é um convite à gratidão pela misericórdia que Deus tem pessoalmente por cada um de nós. O facto de nos regozijarmos, de nos alegrarmos juntos, apresenta-nos uma imagem da unidade, onde não existe contraposição entre “justos” e “pecadores”, mas onde cada um participa na alegria do outro.

Escreveu Chiara Lubich: «É um convite para compreender o coração de Deus, para acreditar no seu amor. Levados, como somos, a calcular e a medir, às vezes pensamos que também Deus tem por nós um amor que, a um certo ponto, se poderia cansar […] A lógica de Deus não é como a nossa. Deus espera-nos sempre: aliás, damos-Lhe uma imensa alegria todas as vezes que voltamos para Ele – ainda que se trate de um número infinito de vezes» [C. Lubich, Palavra de Vida de setembro de 1986, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma 2017, p. 369].

«Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida» (Lc 15, 6)

Por vezes, podemos ser nós esses pastores, esses guardiões uns dos outros que, com amor, vamos à procura dos que se afastaram de nós, da nossa amizade, da nossa comunidade. Temos que procurar os que se encontram marginalizados, os perdidos, os mais frágeis, que as provações da vida afastaram para as margens da nossa sociedade.

Conta-nos uma professora: «Alguns alunos frequentavam as aulas só de vez em quando. Durante as horas em que eu não tinha aulas, ia até ao mercado próximo da escola: esperava poder encontrá-los lá, porque sabia que trabalhavam ali para ganhar alguma coisa. Um dia, finalmente, vi-os. Eles ficaram admirados pelo facto de eu ter ido pessoalmente à procura deles e ficaram sensibilizados por lhes manifestar o quanto eram importantes para a comunidade escolar. Assim, começaram outra vez a vir regularmente à escola e foi, realmente, uma festa para todos».

terça-feira, 1 de julho de 2025


Palavra de Vida

Julho de 2025

Texto preparado por Letizia Magri 


«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

Martine ia numa carruagem do metro de uma grande cidade europeia. Todos os passageiros estavam concentrados nos seus telemóveis. Virtualmente estavam ligados, mas, de facto, estavam aprisionados no isolamento. Questionou-se: «Será que perdemos a capacidade de nos olharmos nos olhos?».

É uma experiência comum, sobretudo nas sociedades ricas de bens materiais, mas cada vez mais pobres em relacionamentos humanos. O Evangelho, no entanto, apresenta-nos sempre a sua proposta original, criativa, capaz de “fazer novas todas as coisas” [Cf. Ap 21,5].

No longo diálogo com o doutor da Lei que o questiona sobre o que é preciso fazer para ter como herança a vida eterna [2], Jesus responde com a famosa parábola do Bom Samaritano: um sacerdote e um levita – figuras de relevo na sociedade daquele tempo – veem um homem agredido por salteadores, caído na berma da estrada, mas passam adiante.

«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

É preciso ser capaz de não olhar apenas para os dons pessoais, mas também para as muitas potencialidades e a multiplicidade de visões e de opiniões que se apresentam diante de nós, naqueles que vivem ao nosso lado e com quem nos relacionamos, e até nas pessoas que encontramos por acaso. É importante, com todos, manter a autenticidade no coração e também ter a consciência dos limites do nosso ponto de vista.

Esta palavra de vida poderia ser um lema a adotar em todas as situações de diálogo e de confronto. Escutar o outro – não necessariamente para aceitar tudo, mas sabendo que é possível encontrar algo de bom naquilo que ele diz – favorece uma abertura do coração e do pensamento. É fazer o vazio dentro de nós, por amor, e ter assim a possibilidade de construir algo juntos.

«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

Ao doutor da Lei, que conhece bem o mandamento divino do amor ao próximo [Cf. Lc 10,25-37], Jesus propõe como modelo um estrangeiro, considerado cismático e inimigo. Ele viu o viajante ferido e encheu-se de compaixão, um sentimento que nasce de dentro, da profundidade do coração humano. Por isso, interrompe a sua viagem, aproxima-se e cuida dele.

Jesus sabe que cada pessoa humana está ferida pelo pecado e esta é precisamente a Sua missão: curar os corações com a misericórdia e o perdão gratuito de Deus, para que sejam capazes, por sua vez, de proximidade e partilha.

«[…] Para aprender a ser misericordiosos como o Pai, perfeitos como Ele, é preciso olhar para Jesus, revelação total do amor do Pai. […] O amor é o valor absoluto que dá sentido a tudo o resto […] que encontra a sua expressão mais elevada na misericórdia. É a Misericórdia que ajuda a ver sempre novas as pessoas com quem vivemos no dia a dia, na família, na escola, no trabalho, sem recordar os seus defeitos, os seus erros. Leva-nos a não julgar, mas a perdoar as ofensas que sofremos. E até a esquecê-las» [C. Lubich, Palavra de Vida de junho de 2002, in Parole di Vita, a/c Fabio Ciardi, (Opere di Chiara Lubich 5), Città Nuova, Roma, 2017, p.659]

«Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele  e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão» (Lc 10,33)

A resposta final e decisiva expressa-se com um convite claro: «Vai e faz tu também o mesmo» [Lc 10,37]. É isso que Jesus repete a quem aceita a sua Palavra: tornar-se próximos, tomando a iniciativa de “tocar” as feridas das pessoas que encontramos, no dia a dia, pelas estradas da vida.

Para viver a proximidade evangélica, antes de tudo, peçamos a Jesus que nos cure da cegueira dos preconceitos e da indiferença, que nos impede de ver para além de nós mesmos.

Depois, aprendamos com o Samaritano a capacidade da compaixão, que o levou a colocar em jogo a sua própria vida. Imitemos a sua prontidão para dar o primeiro passo em direção ao outro com a disponibilidade para o escutar, para fazer nossa a sua dor, livres dos juízos e do medo de “perder tempo”.

Foi a experiência de uma jovem coreana: «Procurei ajudar um adolescente que não era da minha cultura e que eu não conhecia bem. No entanto, apesar de não saber o que fazer nem como fazer, enchi-me de coragem e tentei ajudá-lo. Para minha surpresa, ao oferecer aquela ajuda, notei que me senti “curada” das minhas feridas interiores».

Esta Palavra oferece-nos a chave de ouro para atuar o humanismo cristão: torna-nos conscientes da nossa humanidade comum, em que se reflete a imagem de Deus, e ensina-nos a ir com coragem para além da mera “proximidade” física e cultural. Nesta perspetiva, é possível alargar as fronteiras do “nós” até ao horizonte do “todos” e redescobrir a base fundamental da vida social.

domingo, 1 de junho de 2025

 


Palavra de Vida

Junho de 2025

Silvano Malini e equipa da Palavra de Vida

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

Estamos num lugar solitário, nos arredores de Betsaida, na Galileia. Jesus está a falar do Reino de Deus a uma multidão numerosa. O Mestre tinha-se deslocado para aqui com os apóstolos para os fazer repousar, depois de uma longa missão naquela região, na qual tinham pregado a conversão “anunciando a Boa-Nova e realizando curas por toda a parte” [Lc 9,6]. Cansados, mas com o coração cheio, contavam o que tinham vivido.

As pessoas, porém, tendo-o sabido, dirigiram-se para lá. Jesus acolhe-as a todas: escuta, fala, cura. A multidão aumenta. A noite aproxima-se e a fome faz-se sentir. Os apóstolos preocupam-se e propõem ao Mestre uma solução lógica e realista: «Despede a multidão, para que, indo pelas aldeias e campos em redor, encontre alimento e onde pernoitar». Afinal de contas, Jesus já tinha feito muito… Mas Ele responde:

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

Ficam estupefactos. Está fora de questão: têm só cinco pães e dois peixes para alguns milhares de pessoas. Não é possível encontrar o necessário na pequena Betsaida, e não teriam dinheiro para o comprar.

Jesus quer abrir-lhes os olhos. As necessidades e os problemas das pessoas tocam-no e esforça-se por lhes dar uma solução. Realiza-a partindo da realidade e valorizando aquilo que têm. É verdade, aquilo que têm é pouco, mas chama-os a uma missão: serem instrumentos da misericórdia de Deus que pensa nos seus filhos. O Pai intervém, e, todavia, “precisa” deles.

O milagre “precisa” da nossa iniciativa e da nossa fé, que depois fará crescer. 

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

Portanto, à objeção dos apóstolos, Jesus responde assumindo a situação, mas pede-lhes que façam a própria parte. Mesmo se pequena, não a desdenha. Não resolve o problema por eles. O milagre acontece, mas requer a participação deles com tudo aquilo que têm e que puderam providenciar, colocado à disposição de Jesus para todos. Isto implica um certo sacrifício e confiança Nele.

O Mestre parte daquilo que nos acontece para nos ensinar a cuidar juntos uns dos outros. Diante das necessidades dos outros, não nos podemos desculpar (“não é da nossa conta”, “não posso fazer nada”, “que se arranjem, como todos fazemos…”). Na sociedade pensada por Deus, são felizes aqueles que dão de comer aos que têm fome, que vestem os pobres, que visitam quem se encontra em necessidade [Cf. Mt 25,35-40].

«Dai-lhes vós de comer» (Lc 9,13)

A narração deste episódio recorda a imagem do banquete descrito no livro de Isaías, oferecido pelo próprio Deus a todos os povos, quando Ele «enxugará as lágrimas de todas as faces» [Is 25,8]. Jesus manda que se sentem em grupos de cinquenta, como nas grandes ocasiões. Como Filho, comporta-se como o Pai, e isso realça a sua divindade.

Ele mesmo dará tudo, até se fazer alimento para nós, na Eucaristia, o novo banquete da partilha. 

Diante das muitas necessidades surgidas durante a pandemia de covid-19, a comunidade dos Focolares de Barcelona criou um grupo, através das redes sociais, no qual se partilhavam as necessidades e se metiam em comum bens e recursos. E é impressionante ver como circulam móveis, alimentos, medicamentos, eletrodomésticos… Porque «sozinhos podemos fazer pouco», dizem, «mas juntos podemos fazer muito». Ainda hoje o grupo “Fent família” ajuda a fazer com que, como nas primeiras comunidades cristãs, ninguém entre eles seja necessitado [Cf. At 4,34].