MENSAGEM
PARA A QUARESMA 2021Como
ser discípulo Missionário da Esperança em tempo de Pandemia?
Estimados Sacerdotes, caros Diáconos,
Dilectos Consagrados, Amados Irmãos e Irmãs em Nosso Senhor Jesus Cristo.
Saúdo-vos com fraternal apreço, na
esperança de que vos sintais iluminados e alimentados pela Palavra do Senhor e
fortalecidos pelo Espírito Santo que no íntimo do vosso coração vos orienta e
ensina todas as coisas necessárias para a vossa santificação pela fidelidade
batismal, e para vossa liberdade interior de Filhos de Deus; e por isso
vencedores do Pecado e testemunhas do Amor de Deus expresso na Sua Misericórdia,
e por nós vivido no mandamento Novo do Amor Cristão.
1 - Certamente viveremos esta Quaresma de
uma forma muito diferente, devido ao confinamento exigido pela dolorosa e
inesperada evolução pandémica no mundo e muito concretamente no nosso País,
onde experimentamos momentos de assinalável aflição e continuamos a viver
preocupantes apreensões face às necessárias alterações de vida, dita normal, e
às múltiplas consequências destes confinamentos, na vida económica e social, e
com consequências diversas nas comunidades, sem esquecer as sequelas
psicossociais e as consequências sentidas pelas novas gerações face às diversas
vicissitudes que atravessa a Escola e todo o ensino, bem como as marcas
sentidas na Saúde das populações, em diversos casos em que deixaram de ser
acompanhadas ou sequer atendidas.
Seja-me permitido a todos lembrar, que
parece ser decisivamente importante para o sucesso do desconfinamento, o
simultâneo êxito da campanha nacional de vacinação que deve merecer de todos nós
um compromisso de cidadania consciente, responsável e solidário com os mais
débeis e em situação urgente, bem como os seus cuidadores. Tudo indica que com
o êxito da vacinação beneficiaremos do tão desejável desconfinamento
progressivo, atento e prudente da sociedade.
Importa recordar que o nosso compromisso
cristão tem consequências no exercício da nossa cidadania e do testemunho
autêntico de caridade. A este propósito lembro a Palavra do Papa Francisco, na
sua mensagem para a Quaresma de 2021, intitulada “Quaresma, tempo de renovar a fé, a esperança e a caridade”: «A caridade alegra-se ao ver o outro
crescer; e de igual modo sofre quando o encontra na angústia: sozinho, doente,
sem abrigo, desprezado, necessitado... A caridade é o impulso do coração que nos
faz sair de nós mesmos, gerando o vínculo da partilha e da comunhão. (...) A
caridade é dom que dá sentido à nossa vida e graças ao qual consideramos quem
se encontra na privação como membro da nossa própria família, um amigo, um
irmão. O pouco, se partilhado com amor, nunca acaba, mas transforma-se em
reserva de vida e felicidade. Aconteceu assim com a farinha e o azeite da viúva
de Sarepta, que oferece ao profeta Elias o bocado de pão que tinha (cf. 1 Rs
17, 7-16), e com os pães que Jesus abençoa, parte e dá aos discípulos para que
os distribuam à multidão (cf. Mc 6, 30-44). O mesmo sucede com a nossa
partilha, seja ela pequena ou grande, oferecida com alegria e simplicidade».
2 - A Quaresma não pode ser um resto
arqueológico de práticas ascéticas de outras épocas, mas “Tempo Favorável”, Kairós, na qual podemos fazer a experiência,
pela participação, do Mistério Pascal de Cristo, tornando-se pela Fé, nosso
contemporâneo. Assim nos lembra o Apóstolo das Gentes: «Ora se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus
e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos para também com Ele
sermos glorificados». (Rom
2, 17)
A Quaresma é o “Tempo Favorável”, no qual, Cristo purifica a Igreja, Sua esposa: “Maridos, amai as vossas mulheres, como
Cristo amou a igreja e se entregou por ela para a santificar, purificando-a, no
banho da água, pela palavra. Ele quis apresentá-la esplêndida, como Igreja sem
mancha, nem ruga, nem coisa alguma semelhante, mas santa e imaculada” (Ef. 5, 25-27). Deste modo, a
Quaresma e o seu carácter sacramental, é-nos proposta não tanto com a
acentuação nas práticas ascéticas, mas na valorização da acção purificadora e
santificadora do Senhor. As acções penitenciais são sinal da nossa participação
no mistério de Cristo que por nós se fez penitente e jejuou no deserto. É o
Senhor que dá eficácia aos gestos penitenciais dos seus fiéis; por Ele, tais
penitências adquirem o valor de acções litúrgicas, ou seja, acções de Cristo e
da Sua Igreja.
Pela História da Igreja, sabemos que a
Quaresma surge unida à vivência batismal, sobre a qual se fundamenta o seu
carácter penitencial de conversão. A Igreja é uma comunidade pascal porque é batismal.
Isto percebe-se, não só porque se entra na Igreja pelo batismo, mas também
porque a Igreja é chamada a uma contínua vida de conversão, exprimindo assim a
sua fidelidade ao próprio Sacramento que a gera. É daqui que nos encontramos
com o carácter eclesial da Quaresma. Eis, pois, o tempo da grande convocatória
de todo o Povo de Deus para que se deixe purificar e salvar por aquele que é o
seu Senhor e Salvador.
Todos recordamos com a reforma litúrgica do
Vaticano II que a Quaresma é uma caminhada eclesial de Quarenta Dias, a iniciar
em Quarta-feira de Cinzas e a encerrar-se no Domingo de Ramos da Paixão do Senhor;
assim se conclui a Quaresma e inicia a Semana Santa. A Quaresma é um Tempo
Forte que nos prepara para a celebração da Festa Maior do Cristianismo, a
Páscoa, e que esta preparação nos convida à penitência, através da contrição
dos pecados cometidos, com decisão de conversão e emenda de vida, testemunhando
a verdade desta metanoia com obras de autêntica caridade, através de gestos de partilha
fraterna e solidária com os irmãos mais necessitados de obras de misericórdia
corporais e espirituais. Assim a penitência não é assumida só de modo intimista
e individual, mas sobretudo de modo testemunhal e eclesial. Deste modo, a
Penitência Quaresmal manifesta o nosso arrependimento pelo pecado, enquanto
ofensa a Deus, e com consequências sociais que tentamos reparar pelos nossos actos
de caridade e com a participação da Igreja através da sua contínua oração pelos
pecadores.
3. Os meios sugeridos pela Igreja para a
prática Quaresmal são a escuta mais frequente da Palavra de Deus, a oração mais
intensa e prolongada, a prática do jejum e das obras de caridade (Vat. II S.C. 109-110). Para apoiar os
Cristãos nesta vivência e tendo em conta o contexto atípico de Pandemia,
proponho cinco propostas que poderão proporcionar algum conforto e ajuda
espiritual:
- Catequeses Quaresmais, que abordarão o
tema do nosso Ano Pastoral “Discipulos
Missionários da Esperança pelo Acolhimento e pela Procura”, que serão seis
catequeses por mim apresentadas, desde Quarta-feira de Cinzas até à
Quarta-feira da Semana Santa, na qual meditaremos a perícope «Vinde a Mim Vós que andais sobrecarregados
e eu vos aliviarei» (Mt.
11, 28).
Estas catequeses serão transmitidas às 19,15 horas nos canais digitais da
Arquidiocese (Página. Youtube, e Facebook) e também no canal televisivo Canção
Nova. (A Catequese de Quarta-feira de Cinzas dia 17 de fevereiro, por ser só de
carácter introdutório, será apenas transmitida através dos canais digitais da
Arquidiocese).
- Domingo em família: com a finalidade de
acompanhar as famílias, neste contexto de confinamento, os Departamentos
Diocesanos da Pastoral Litúrgica e da Educação da Fé dos Adultos e do
Apostolado dos Leigos prepararam, para cada Domingo um subsídio que leva a cada
família que o deseje, o apoio espiritual e a solicitude pastoral, a transmitir
todos os Domingos na página digital e no Facebook da Arquidiocese.
- Renúncia quaresmal: seguindo um apelo da
Caritas Portuguesa, dirigida ao Sr. Presidente da Conferência Episcopal, «este será o segundo ano consecutivo em que
a rede nacional Caritas se verá privada de realizar o peditório público na rua.
Se os recursos diminuíram por via dos constrangimentos que a pandemia nos
colocou, esta mesma pandemia trouxe um número acrescido de solicitações a que,
em conjunto, temos procurado dar resposta». Assim, apelo a todos os
diocesanos que juntos ofereçamos a nossa Renúncia Quaresmal a favor da nossa
Caritas Diocesana, a quem confio, como nos anos anteriores, a concretização
desta recolha, indicando com criatividade e precisão os modos como todos
poderemos participar neste gesto solidário tão urgente, e a que o Papa
Francisco também alude na sua mensagem: “Viver uma Quaresma de caridade
significa cuidar de quem se encontra em condições de sofrimento, abandono ou
angústia por causa da pandemia de Covid-19. Neste contexto de grande incerteza
quanto ao futuro, lembrando-nos da palavra que Deus dera ao seu Servo – «não temas, porque Eu te resgatei» (Is 43, 1).
- Quaresma da Morte à Ressurreição:
conferência proferida pelo Padre Carlos Carneiro SJ, dia 27 de fevereiro pelas 21,30
horas, uma iniciativa do Departamento Diocesano da Pastoral Juvenil, cujo link
será indicado nos canais digitais da Arquidiocese.
- Início do Ano Dedicado à Família:
celebração na Igreja de S. Francisco no dia 19 de março, pelas 21, 30 horas,
iniciativa do Departamento Diocesano da Pastoral Familiar, cujo link será indicado
nos canais digitais da Arquidiocese.
Assumamos estas propostas, levando-as às
nossa oração pessoal e colocando-as nas Preces Litúrgicas ou Orações
Universais, inclusive na oração em família e nas celebrações transmitidas pelos
diversos meios digitais ou de comunicação social.
Na comunhão da oração e da caridade a todos
desejo Santa Quaresma
Évora, 17 de fevereiro e Quarta-feira de
Cinzas do ano 2021.
+ Francisco José Senra Coelho
Arcebispo de Évora